quarta-feira, 7 de março de 2012

A plateia surda

Poderia ter sido somente uma ida comum ao cinema, mas definitivamente não foi. Primeiro porque eu estava levando meus pais para assistir O Artista, de Michel Hazanavicius, que revive os tempos de cinema mudo. Segundo pelo fato de eu ser artista (assistir filmes com dilemas artísticos sempre me incitam porque vivo num dilema eterno desde que me tornei ator). Terceiro porque, por incrível que pareça, era a primeira vez que meus pais iam juntos ao cinema.

O filme é um pouco cansativo, a trilha sonora preenche tanto as cenas que chega a irritar. Ao mesmo tempo, a monotonia melódica me ninou. Não me apedrejem, mas cochilei em alguns trechos. Queria eu ter vivido mais os silêncios, ou ter me deparado com cenas mais transcendentes como quando as coisas ganham som, menos a garganta de George Valentim (Jean Durjadin), que vê sua carreira de ator desabar com a ascensão dos atores e atrizes com falas audíveis nos filmes posteriores.

O curioso é que só depois dessa cena eu contei pra minha mãe que eu não ouvia o que os atores falavam e que ninguém no cinema ouvia porque o filme é mudo. Em Língua Brasileira de Sinais (Libras), na penumbra da sala, ela disse com os olhos interrogativos de uma criança: “Ninguém tá ouvindo nada? Como?”. Depois ela encostou de novo a cabeça na poltrona e voltou a assistir, meio impressionada com aquilo. O papai sacou mais rápido, já tinha percebido há mais tempo. E eu pensei: “Hoje todo mundo nesse cinema é surdo”.

O filme não foi lá essa maravilha toda que comentavam, mas saí do cinema feliz. E, para completar, a frustração com o filme desapareceu completamente quando vi meu pai sapateando serelepe na saída da sala, imitando os passes finais de George e Peppy Miller (Bérénice Bejo). Dormi pensando nisto: comunicar está muito além do ouvir e falar.

Danilo Castro
07/03/2012

Veja o traller do filme:



6 comentários:

Felipe disse...

Nossa, que interessante!!!! e para sua mãe também deve ter sido uma grande surpresa. espero que seus pais tenham gostado do filme, que estou louco pra ver!

Luciana Castro disse...

Estou sempre me surpreendendo com sua sensibilidade, essa sua atitude foi honrosa, parabéns!

Alan Barros disse...

Fantástico! Já tinha ficado encantado com um programa do Cinema com Rapadura falando sobre a relação entre cegos e cinema. Perceber também essa outra experiência é mágico.

Gorette Castro disse...

Excelente texto Dandan.....e mais legal ainda foi levá-los a ver esse filme, uma grande vivência para os dois, principalmente junto dos filhos, no meio de uma correria que eu sei que é a sua vida.

Thiago Cavalcante disse...

Oi Danilo.

Ainda não consegui ver esse filme - quero muito.

Imagino o contentamento dos seus pais - que me alcançou, através de sua postagem. Alegria por isso.

Um grande abraço, amigo: com paz.

Thiago Cavalcante disse...

Voltei.

Pude ver o filme hoje (31/03) juntamente com minha avó. Ela fazendo crochê, com um olho no seu trabalho e o outro na televisão. Contei a ela sua experiência, a experiência de seus pais, ai ela se empolgou para me fazer cia., sem parar de "crochear".

Gostei do filme. Simples, mas delicioso de se ver.
Algumas cenas me tocaram intensamente: Quando George Valentin (Jean Dujardin) entra no seu camarim e se depara com Peppy Miller (Bérénice Bejo)abraçando-se ao seu terno. Outra cena que, penso eu, é carro chefe nesse filme é a "fala" da esposa de Valentin direcionada a ele: Você não tem nada para me falar 9+ ou - assim, cito de cor). Isso é forte.

Eu tenho um sério problema: me reconheço nas artes,e por vezes, deixo de ser um "leitor/observador" crítico e me entrego às lembranças, ou melhor, vivências que tive; sendo assim, sempre enxergo um pouco do meu passado/presente/futuro em tudo que primo, nesse caso, cinema.

Vou ficando por aqui. rs

Um grande abraço, Danilo.