sexta-feira, 30 de março de 2012

Strike a pose

A cultura andrógina ganha espaço na noite de Fortaleza. Os gêneros fechados aos poucos são ofuscados por homens que também se encontram femininos e vice-versa

Danilo Castro - ESPECIAL PARA O POVO
danilocastro@opovo.com.br

Eles/elas se vestem como homens ou mulheres? Na verdade, o “ou” poderia ser substituído por “e”. Enquadrar num único padrão não cabe. Aos poucos, a cultura andrógina invade os espaços alternativos de Fortaleza. São garotos e garotas que gostam de viver a dubiedade perpassada entre os gêneros, chamando atenção na noite da cidade. Eles exprimem-se através de um estilo ambíguo e peculiar.

A força que essas figuras carregam consigo pode desestruturar um olhar desavisado e convencional. Androginia é um recorte nessa zona embaçada de transição entre os gêneros. Diante de classificações cristalizadas e estilos padronizados, essa cultura, no mínimo, rouba olhares. Para a biologia, androginia pode significar hermafroditismo, mas, para estilistas, é um fenômeno cultural de liberdade, e, ao contrário do que se pode pensar, não tem relação direta com uma orientação homo ou bissexual.

A designer de moda Rafaela Kalaffa exemplifica que o guarda-roupa dos homens está variando mais. “O vestuário masculino estava num processo de conforto, roupas minimalistas, ternos”. Para ela, atualmente os homens têm tido mais liberdade para se expressar e isso se reflete também no vestuário, já que a androginia não é apenas um estilo dúbio de se vestir, podendo revelar nuances das individualidades em um meio social. “A moda é resultado de um comportamento”, ressalta.

Segundo Kalaffa, apesar de parecer recente, a cultura punk já fazia uso da androginia na década de 1970. No mesmo período, o grupo brasileiro Dzi Croquettes revolucionou as casas de espetáculos no Brasil e na Europa. Treze homens quebraram tabus em plena ditadura militar com um estilo másculo e delicado ao mesmo tempo. Misturando dança, teatro e música, eles arrastaram seguidores num furacão que influenciou uma geração, inspirando posteriormente as Frenéticas.

Em Fortaleza, o recém-chegado grupo Troll traz uma proposta andrógina para a cena. O performer Edgel Joseph diz que a inspiração vem do estilo de dança vogue, oriundo dos guetos afro-americanos de Nova York na década de 1980, que simulavam poses de modelos em capas de revistas. “São homens que dançam no salto, mas não ferem a masculinidade. Se as mulheres tiveram uma revolução masculina, porque os homens não podem ter uma feminina?”, questiona-se, fazendo alusão à conquista que as mulheres tiveram ao deixarem de usar somente saias e vestidos e para também usarem calças e ternos.

O coletivo, que estreou na boate Meet no último fim de semana, pretende conquistar eventos diversos não só voltados para o público LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais). O Troll possui forte influência do grupo ucraniano Kazaky, composto por homens musculosos, mas com forte apelo sensual feminino. “Numa cultura machista, o Troll está sendo visto com muita novidade”, revela Edgel.

Moda andrógina no cotidiano

Moda, música e dança influenciam esses perfis. O cearense Daniel Peixoto, da banda eletrônica Montage, ganhou o mundo com seu estilo andrógino, Ney Matogrosso consolidou-se com seu jeito provocativo e dúbio de se apresentar. O modelo australiano Andrej Pejic estampa vários editoriais de moda masculina e feminina. Mas, e quando o estilo andrógino ultrapassa os holofotes e se entranha no dia-a-dia?

O estudante de web design Firmiano Alves, 20, é apaixonado por saltos altos desde a adolescência e reconhece os olhares tortos com que se depara, mas não abre mão do estilo que lhe faz sentir bem. “Eu gosto do estilo andrógino, mas não sinto necessidade de ser mulher, de colocar peruca, peitos. Gosto de salto, shorts de cintura, gosto de ser do jeito que eu sou”, conta.

Levi Arruda, 20, é produtor de moda e começou a usar algumas roupas femininas aos 14 anos. “Eu era muito magro, as roupas masculinas não cabiam em mim”. Aos 16, começou a ousar mais. “Sempre tenho uma peça feminina que uso com uma masculina, nunca é look inteiro de um gênero só. Em festas, eu ouso mais, depende da ocasião”. O produtor acredita que a moda para homens ainda é muito restrita. “Nas grandes metrópoles, as roupas masculinas são mais ousadas, descoladas”, comenta.

Fonte: Vida & Arte - Jornal O POVO (30/04/2012)
Matéria secundária

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