sábado, 28 de abril de 2012

Balanço santista

Por puro preconceito geracional, tive um impacto ao me deparar com um grupo de jovens organizando o festival mais antigo do País. Sim, algo incrustrado culturalmente, como se os mais velhos fossem necessariamente mais organizados, detentores de um senso de cuidado imensamente superior ao nosso. Um banho de água fria, que bom. Ver jovens tão empolgados, tão coesos, a frente de um festival desse porte me fez mais uma vez repensar meus conceitos, até porque também sou jovem e me senti bem representado geracionalmente diante de artistas e produtores que não mediram esforços para realizar um excelente evento dentro das restritas possibilidades financeiras. 

De 13 a 21 de abril, o Festival Santista de Teatro (Festa), que chegou a sua 54ª edição e já trouxe na trajetória organizadores como a atriz Patrícia Galvão, carinhosamente conhecida por Pagu, e o dramaturgo Plínio Marcos, fez-me fincar ainda mais os dois pés no território incerto que é o teatro, onde estou construindo minha história cheio de dúvidas, medos, anseios e realizações. Entre os altos e baixos do evento, foi diante das simplicidades que me encontrei, que conheci sorrisos brincantes, mas sérios também. Mesmo tendo pisado tão pouco tempo em terras são paulinas, pude conhecer um pouco dos sonhos e dos medos com os quais compartilho na árdua tarefa de ser artista. Voltei de Santos um pouco santista e meio esquizofrênico com os vários sotaques dos meus colegas intercambistas. 

Ao lado de mais 17 pessoas, de vários outros estados, interessadas em pensar teatro, fui selecionado como intercambiador de saberes. Sinto que a troca realmente existiu, tanto que em tão pouco tempo estávamos todos entrosados, como amigos de velha infância (isso realmente me colocou diante de um estranhamento ótimo). O teatro ultrapassou questões estéticas, técnicas, fundamentadas nos tantos teóricos que nos regem sobre a arte. O teatro foi além das relações políticas, foi o mote para discutirmos nossas próprias vidas de forma intensa, mas informal, fora dos debates oficiais pós-espetáculos e dentro das rodinhas de conversas em meio a cigarros e cervejas. 

Conheci grupos como os paulistas Parlapatões, com o espetáculo Ridículos Ainda e Sempre. Eles que brincam com a palhaçaria, extrapolando suas piadas e se colocando no risco de cenas ridiculamente inimagináveis. Ainda assim, em meio às gargalhadas desenfreadas, que estão além das risadas curadoras de tensões, eles não deixam de ser ácidos, sarcásticos, irônicos, críticos, propondo reflexões mil sobre a sociedade que vivemos. Conheci também as joviais e firmes garotas da Cia. Aurora, que trouxeram à cena, através do espetáculo As Desgraçadas, um universo feminino e novelesco. Dentro de uma estética peculiar e cheia de nuances luminosas, as atrizes quase dançam com suas ações físicas estilizadas. 

Espetáculo Ridículos Ainda e Sempre, do Parlapatões
Outro ponto forte foi a oficina de Teatro do Oprimido com Dodi Leal. Em meio às muitas faculdades de Artes Cênicas pelo País, poucas são as que incluem na sua grade os métodos e conceitos do carioca Augusto Boal, também conhecido como “Brecht da América Latina”. Aprofundar-me diante dos conceitos que até então me eram superficiais ou globais, foi engrandecedor, pois também pude reconhecer-me socialmente dentro do Teatro Fórum, Legislativo, Invisível, Jornal, Imagem, Arco-Íres do Desejo, dentre outros  métodos e jogos para atores e não-atores. 

Espetáculo As Desgraçadas, da Cia. Aurora
O Festa foi sim uma grande festa, daquelas cheias de delicadezas, que deixam recordações por toda a vida. Sem pieguismos, foi diante das dificuldades, dos detalhes, da atenção e do cuidado que o evento se construiu as minhas vistas. Fui de olhos fechados e voltei com eles mais brilhantes, mais cheios de desejos. Pra mim foram só quatro dias, não sei como foram os outros, se houve algum problema ou falha de produção, mas, pelo que vivi, posso garantir que, caso tenham acontecidos erros, havia ali (entre os jovens santistas) maturidade suficiente para reconhecê-los e corrigí-los na medida do possível. Que eu possa ter deixado um pouco do teatro cearense nessas terras que até então me eram desconhecidas, porque um pouco dos vários teatros que compõem essa loucura artística que é o Brasil ficou em mim.
Danilo Castro
28/04/2012

Conheça o grupo Parlapatões
Conheça a Cia. Auroras

6 comentários:

Lua Morkay disse...

Dan, gosto da sua escrita. Rápida e ágil. Gosto também quando o teatro (e a arte, de modo geral) ultrapassa qualquer entendimento lógico e funcional da "coisa" e o que sobra é mesmo o "absurdo". Ainda estou digerindo o FESTA!...

moça disse...

"Fui de olhos fechados e voltei com eles mais brilhantes, mais cheios de desejos." (lindo)
Em nossas vidas sempre fica uma parte de cada lugar em que vamos, e nos lugares em que passamos, pode ter certeza, que uma parte, nem que seja bem pequena, fica da gente.
A tua felicidade e empolgação de viver o teatro contagia.A vontade de fazer e seguir aquilo que eu gosto se firma quando leio teus textos. espero um dia conseguir passar com a mesma fidelidade as minhas realizações acadêmicas e trabalhisticas.
obrigada por fazer parte da minha vida.
sorte e muita força pra vc, suas aspirações vão dá certo, vai ver. ;)

Gorette Castro disse...

Dandan, fico muito feliz ao ver e sentir as suas descobertas e experiências, cada vez mais percebo que o teatro está em sua alma, é contagiante a sua empolgação. E fico mais feliz ainda em saber que tenho uma pontinha de responsabilidade nisso, rsrs. Sucesso.

Thaiane Moura disse...

Danilo, adorei o texto. Através dele consegui sentir um pouco do q vc presenciou em São Paulo. Saiba que sempre torço pelo seu sucesso e pelas suas realizações. É maravilhoso ver o brilho do seu olhar e entusiasmo ao falar de Teatro e Jornalismo, suas paixões.

Bjão, meu caro!

Danilo Castro disse...

Valeu a força, pessoal.

Thiago Cavalcante disse...

Danilo,
seu texto levou-me à recordação de um fragmento, belíssimo, da poetisa Adélia Prado (escritora que amo). Vamos ao trecho então:

Quero ser um poeta extraordinário e desejo poder escrever um teatro muito engraçado pra todo mundo rir até ficar irmão. (Adélia Prado: Cacos para um vitral).

Sou agradecido por ser aquecido (aqui nas terras São Paulinas está muito frio)com suas palavras otimistas, meu amigo. Que sejam assim, sempre.

Sucesso.

Paz.