domingo, 1 de abril de 2012

Das dores das flores

Eram apenas flores mal pintadas com tentativas quase frustradas de degradês entre tons de verde e azul. Ele olhou atentamente cada uma delas e lembrou de quando seu sonho era ser pintor. Eram rosas vermelhas, rosas roxas e rosas rosas, além de algumas margaridas tímidas amarelas e brancas. A avó, naquela época, havia mandado colocar uma moldura que anos depois foi pintada de dourado. Por que aquele quadro desengonçado ainda estaria ali? Olhando atentamente o fluxo de cada pincelada ele rememorou pedaços do dia em que pintou o quadro estranho, copiado de uma revista passo-a-passo. E quase chorou enquanto sua tia ajeitava os outros quadros da casa vislumbrando quais paredes seriam pintadas adiante, que novos móveis e quadros preencheriam aquela sala arejada. Eram rosas toscas, mas que lhe atingiram tão bonitas, cheirando aos sonhos infinitos e possíveis de outrora. Foram elas a ponte para um passado não tão distante. Aquelas rosas que ele pintou ainda estavam lá, malfeitas e vivas, frescas, eternizadas com o mesmo brio que sua infância carregava consigo. E ele, onde estaria, para onde iria, o que lhe eternizaria?

Danilo Castro
31/03/2012

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