quinta-feira, 12 de abril de 2012

Pólvora, sangue e poesia

Como encontrar a maneira certa de comunicar aquilo que se propõe? Idealizar é o primeiro passo para que se chegue à concretização artística. Mas, e quando a realidade não chega ao nível da idealização? Pode parecer complexo demais ou um subjetivismo bobo, mas em suma, o espetáculo baiano Pólvora e Poesia, que se apresentou nos últimos dias em Fortaleza pela mostra Palco Giratório do Sesc, parece não alcançar o clímax que a encenação atinge. 

Fernando Guerreiro dirige um trabalho limpo, violentamente elaborado e preciso, que narra a história de amor entre dois grandes poetas do século XIX. Os franceses Paul Verlaine (Caio Rodrigo) e Arthur Rimbaud (Talis Castro) afundam-se dentro dos próprios dilemas que ultrapassam os típicos conflitos de uma relação homossexual proibida, ainda mais em tempos onde os olhares repressores eram bem mais evidentes. 

Com uma dramaturgia ágil e robusta, de Alcides Nogueira, o trabalho é sintético, extremamente conciso, talvez em oposição à complexidade do texto, que por si já preenche o trabalho como um todo. Não é a toa que a peça ganhou melhor texto no Prêmio Shell em 2001. A literatura do trabalho é tão intensa, que parece que os atores, por mais disponíveis que sejam, não alcançam a força que a encenação do trabalho pede naturalmente. O espetáculo é a prova concreta do quão é difícil a arte de ator. Os protagonistas, mesmo executando bem suas funções, ainda estão abaixo da encenação.

Outro ponto de destaque do trabalho é a musicalidade, que talvez caminhe moderna em direção contrária à história de outrora. No entanto, apesar de se passar na década de 1870, a trama é universal. Talvez por isso foi um casamento que deu certo. A música traz um caráter pesado, conflituoso, devido às experimentações à la rock and roll ao vivo do diretor musical e guitar man Juracy do Amor.

Nós, espectadores, sentimos as dores físicas que os atores sofrem ao se espancarem num jogo de amor louco. É um risco inteligentíssimo que fisga o público, mas talvez seja preciso ainda mais. Não apenas dores, gritos e força carnal, mas algo subjetivo. Algo que comece pequenino, internamente, e exploda como nunca. Como se uma bomba estilhaçasse pedaços dos próprios atores no seu público, para que fiquemos impreguinados de sangue, pólvora e poesia.
Danilo Castro
12/04/2012


Veja o diretor Fernando Guerreiro falando sobre o processo de montagem. 

3 comentários:

Felipe Sales disse...

Não consigo esquecer a sensação de que vi a paixão que os atores mostram, mas não consegui senti-la. Ainda assim, é um bom trabalho de direção e de atores, música e luz!!!

Chris disse...

uma troca. o estampido da pólvora por essa outra explosão, mais intensa, menos barulhenta, mais marcante.

ainda assim, gostei de ter visto.

Silvero Pereira disse...

assino embaixo em tudo. Nossa!