quinta-feira, 10 de maio de 2012

Ofensa ou referência?


Dos palcos à arena política, o trabalho do ator e diretor Silvero Pereira fez polêmica na cidade. Lançado em janeiro, o projeto Translendário, assinado pelo artista, virou mote de briga entre PT e PSDB e pôs em foco os limites da releitura de obras de arte




















Danilo Castro - ESPECIAL PARA O POVO
danilocastro@opovo.com.br

Tudo começou ainda em 2010, quando o ator e diretor Silvero Pereira idealizou, ao lado do fotógrafo Sol Coêlho, o Translendário, obra que reuniu diversos atores, que também trabalham como transformistas, em releituras de imagens clássicas das artes plásticas no mundo. Em janeiro de 2012, o calendário foi lançado como mais uma etapa de um trabalho consolidado, que já dura dez anos, onde Silvero trouxe para a cena o universo das travestis nos espetáculos Uma Flor de Dama, Cabaré da Dama, Engenharia Erótica e Yes, Nós temos banana!.

Quatro meses após o lançamento, o rebuliço em relação às imagens foi grande. O Translendário entrou na pauta política. Na última quarta, 8, o deputado Fernando Hugo (PSDB), em meio à Assembleia Legislativa, criticou o Translendário como uma obra ofensiva aos cristãos. A polêmica surgiu porque entre releituras como a de Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, está A Última Ceia, do mesmo pintor, e Pietá do Vaticano e Criação de Adão, de Michelangelo.

Por serem imagens reproduzidas com “travestis” protagonizando os quadros de cunho religioso, o deputado criticou o “absurdo” financiado pela Prefeitura de Fortaleza, já que a logomarca está impressa no calendário. Na ocasião, o deputado Antônio Carlos (PT) qualificou o discurso de Fernando como preconceituoso e conservador, enfatizando que a proposta é respeitar a diversidade e combater a homofobia.

A Prefeitura, porém, negou o financiamento. “Só tomamos conhecimento depois que o material foi impresso”, garantiu Demétrio Andrade, coordenador de comunicação social da Prefeitura. Silvero disse que sempre teve apoio informal da Prefeitura e que promove suas ações através da Coordenadoria da Diversidade Sexual de Fortaleza, como a Quarta Cultural LGBT, evento semanal que trazia atrações para visibilizar a causa e discutir o tema. “Não é uma ação isolada, faz parte de um contexto de grupo, é um processo encabeçado por mim sobre o universo trans na sociedade”, explica o ator.

Com dinheiro pessoal e os cachês de apresentações, o Translendário foi financiado. “A gente realizou algumas apresentações para a coordenadoria. O dinheiro dos cachês foi utilizado para isso. A decisão foi minha de colocar a logomarca em reconhecimento ao apoio que eles deram”, conta o ator. Segundo ele, a Prefeitura teve acesso ao material após o lançamento, mas ele não foi impedido de utilizá-lo, apenas ouviu comentários de terceiros que o trabalho poderia prejudicar a imagem da Prefeitura.

“A gente decidiu construir um trabalho que fosse de qualidade. Queríamos que fosse uma imagem positiva do universo trans”, explica Silvero, que disse não ter intenção de ofender religião alguma, mas admite a ingenuidade no uso da logo. Demétrio afirmou que “se ele quiser reimprimir, está desautorizado a usar nossa logo”, frisando que a Prefeitura costuma apoiar diversos eventos LGBT, mas que isso é feito de maneira formal, institucionalizada. O coordenador também informou que não será movido nenhum tipo de processo contra o ator, pois a quantidade do material impresso foi pequena.

Saiba mais 

A logomarca da Prefeitura de Fortaleza só pode ser utilizada em qualquer tipo de material após avaliação da Coordenadoria de Comunicação Social. Para isso, é necessário que haja confirmação institucional do apoio. “Após ser fechado qualquer tipo de apoio, parceria, patrocínio, relação contratual com qualquer parceiro ou evento, a Prefeitura tem obrigação e o cuidado de verificar como sua logomarca foi aplicada”, explicou Demétrio Andrade.


Liberdade Artística

A artista visual portuguesa Ângela Berlinde
também trabalha recriações de obras de arte clássicas
No Brasil, o artista Alexandre Mury tem sido reconhecido por suas releituras de obras clássicas. Outro destaque nessa linha de trabalho é a artista visual portuguesa Ângela Berlinde. A pedido do O POVO, ela conferiu as imagens e matérias que saíram sobre o assunto. Ângela crê que não se pode cercear a liberdade estética e artística nesse tipo de trabalho. “Não acho que é preciso ser ponderado em obras de cunho religioso”, disse.

Dentre suas obras, a artista também possui uma releitura de A última Ceia, onde coloca Jesus Cristo como um patrão e os 12 apóstolos como seus operários. Seu trabalho surge com intuito de quebrar o limite entre o humano e o divino, o profano e o sagrado, a Terra e o céu. Para ela, no universo artístico, todos os quadrantes são possíveis. “A arte, se é limitada, deixa de ser arte. Ponderar a sua castração significa anulá-la”, concluiu.

Fonte: Matéria Principal Vida & Arte - Jornal O POVO (10/05/2012)
Matéria Secundária Vida & Arte - Jornal O POVO (10/05/2012)

2 comentários:

FaBinho Vieira disse...

Lindo Danilo!!

Danilo Castro disse...

Estamos todos do mesmo lado. É trash ver o trabalho do Silvero, tão sólido, tão lindo, sendo desmerecido dessa forma.