sexta-feira, 22 de junho de 2012

Diversidade sexual em cena


Para discutir identidades de gênero e diversidade sexual, o festival Zona de Transição, do Theatro José de Alencar, traz espetáculos sobre os temas

Danilo Castro - ESPECIAL PARA O POVO

O que é ser homem ou mulher na sociedade? De maneira simplista, pode significar apenas uma questão biológica. Mas será que os papeis masculino e feminino podem ser definidos assim, somente pelo sexo? Para muitos, gênero é uma questão bem mais ampla e deve ser encarado como uma identidade. É aí, longe dos determinismos sociais, que se encontram pessoas do sexo masculino, mas que são mulheres e vice-versa, além daqueles que estão na zona de transição entre os gêneros. Quem define o que alguém é não pode ser o coletivo, mas o individual.

De hoje a domingo, o festival internacional Zona de Transição, do Theatro José de Alencar, traz à cena espetáculos que abordam temáticas ligadas a gênero e diversidade sexual, assuntos que, muitas vezes, ainda são considerados polêmicos. Na performance Não alimente os animais, o paranaense Ricardo Marinelli rasteja-se pelas ruas como uma figura andrógina, que tem uma corrente presa aos pés com uma placa onde o título da apresentação está escrito. “Quero mostrar como essas mulheres (travestis e transexuais), têm sido vistas de forma zoológica. Elas estão enjauladas na noite. Elas são vistas como um ser exótico, uma coisa estranha”, diz ele.

Ricardo, que começou a pesquisar o universo das “travesqueens” após duas amigas serem assassinadas por rapazes que lhes deram um banho de ácido, sofre na pele alguns atos de repúdio ao seu trabalho durante as apresentações. “Uma vez um homem gritou xingamentos homofóbicos comigo, cuspiu na minha cara e uns três metros depois me deu um chute muito forte na barriga”. A atitude só confirmou o quanto a sua pesquisa é necessária. Ainda assim, ele também ressalta momentos que considera louváveis. “Uma senhora me deu água, estava muito quente, e me acompanhou até o fim do trajeto”, lembra.

O performer também apresentará Eu tenho autorização da polícia para ficar pelado aqui, onde questiona em praça pública a legislação que rege o que é ou não um ato obsceno. Ele se disponibiliza a realizar ações a partir de estímulos do público. A ideia é brincar com questões que desnudam não só seu corpo, mas principalmente a alma. “Todo mundo vê gente pelada o tempo todo. As pessoas se incomodam quando tiram a roupa na rua, mas assistem Gabriela no horário nobre”, dispara.

Outro trabalho que também se apresenta no festival é o espetáculo Réquiem para um rapaz triste, do grupo Teatro do Indivíduo, de São Paulo. O ator Rodolfo Lima se transforma em uma viúva melancólica inspirada nas personagens femininas de Caio Fernando Abreu. O trabalho, dirigido por Ivânia Davi, discute os pontos de vista de uma mulher solitária, mas que tem esperança de reinventar seu papel na sociedade.

Nesses entremeios comportamentais, que são naturais, mas fogem dos padrões impostos, discutem-se conjuntamente as homossexualidades, que não estão necessariamente ligadas a uma vontade de ser de outro gênero. No espetáculo Bicha Oca, Rodolfo vive o personagem Alceu, que questiona atitudes atuais e hábitos antigos da sociedade. A obra, que também é assinada pelo grupo Teatro do Indivíduo e rememora os casos de amor do protagonista, é livremente inspirada na literatura homoerótica do pernambucano Marcelino Freire.

Em Fortaleza, o ator Silvero Pereira trouxe à cena um trabalho desbravador através de sua personagem Gisele Almodóvar. Desde que começou sua pesquisa, há mais de dez anos, o ator trouxe o universo dos transformistas, das travestis e transexuais, conhecido apenas pelos nichos de boates gays, para a cena teatral contemporânea. Com isso, surgiram trabalhos como Uma Flor de Dama, Cabaré da Dama, Engenharia Erótica – Fábrica de Travestis e, mais recentemente o grupo As Travestidas, que também se apresentou no Zona de Transição com trechos do espetáculo Yes, nós temos banana.

Saiba mais 

No domingo, 24, também no Theatro José de Alencar, os intérpretes Ricardo, Rodolfo e Silvero Pereira se encontrarão para uma roda de conversa com o público sobre seus espetáculos. A ideia é compartilhar como foram desenvolvidos as suas respectivas pesquisas artísticas e quais avanços os trabalhos têm conseguido para debater os temas na sociedade.

SERVIÇO 

Réquiem para um rapaz triste, sábado (23) e domingo (24), às 18h na Sala de Canto. R$ 5 e R$ 10.

Bicha Oca, sábado, 23 às 23h, e domingo, 24, às 20h no Teatro Morro do Ouro. R$ 5 e R$ 10 (18 anos)

Eu tenho autorização da polícia para ficar pelado aqui, hoje (22), às 17h na calçada do TJA. Gratuito.
Não alimente os animais, sábado, 23, às 16h na calçada do TJA. Gratuito. 

Debate Zona de Escola, roda de conversa com Silvero, Ricardo e Rodolfo. Domingo (24), às 16h no foyer. Gratuito.

Fone: 3101 2567 e 3101 2566

Nenhum comentário: