sexta-feira, 29 de junho de 2012

Entrei na história: Fé na festa


Quadrilha é coisa séria. Brincadeira de gente grande, feita a custo de muito suor e amor. O POVO se enfronhou numa delas. A campeoníssima Ceará Junino dividiu conosco sua festa ao Rei do Baião

Fotos: Igor de Melo
Danilo Castro - ESPECIAL PARA O POVO

Para dançar, foi preciso abrir as asas o máximo possível, ainda assim, a tarefa foi árdua. A última vez em que havia dançado quadrilha foi com uns 14 ou 15 anos ainda no colégio. A Ceará Junino, que já tem uma década de história, me recebeu de prontidão como mais um membro da prole de avoantes. “Venha sem pressa de sair”, disse-me Roberto de Sousa, presidente da quadrilha. Mal sabia que estava me metendo em um negócio seríssimo, que não era tão simples quanto imaginei.

No último dia 23, a escola municipal Roseli Mesquita, no bairro Álvaro Wayne, foi meu palco. Definitivamente, não foi fácil. A produção começou em setembro do ano passado, mas eu, em apenas quatro encontros, tive que conseguir a proeza de pegar uma coreografia que já estava amarradíssima no grupo. Diga-se de passagem, o amor que cada um tem pelo que faz é tão intenso que nem eles sabem explicar o que se se passa quando se descolam do chão para dançar. Comigo foi parecido, chegou um momento em que não consegui mais pensar em nada, me deixei ser conduzido pelos gritos e pela força dos brincantes.

Nos ensaios, fui apadrinhado pelo microempresário Webert Moura, 28, que me preparou individualmente passo a passo. Quando me encontrei com o grupo de 114 brincantes, no ensaio geral, conseguiram me encaixar na roda e conheci um pouco do que viveria mais a frente, na minha grande estreia. Webert me contou que viu a Ceará Junino pela primeira vez em 2007 e não teve receios de pedir pra dançar no ano seguinte. “Para mim, eu nunca ia dançar naquela quadrilha. Eu chorei quando vi, me encantei. A música até hoje não sai da minha cabeça”, lembrou ele, que não pôde esconder o brilho nos olhos, nem eu.

Depois, conheci o mecatrônico Valbênio Henrique, 29. Ele nem pensou duas vezes quando lhe propus me emprestar seu figurino, que custou R$ 1.500. O brincante é quadrilheiro há 17 anos e em 2012 está dançando em homenagem à avó, que faleceu recentemente e era sua grande apoiadora. Por gratidão à mecena, ele dançou com mais força. “Quando a sanfona toca, algo toma conta de mim. Felicidade é algo pequeno em relação ao que sinto”, revelou.

O esquema parece muito com o de uma escola de samba, tanto que a tecnologia usada para a construção do cenário foi a mesma dos carros alegóricos no Rio de Janeiro. Um busto de Luiz Gonzaga, com cinco metros de altura, tocando uma sanfona que se abre e dá passagem à noiva. Roberto me contou que o cenário custou R$ 20 mil, que a roupa de cada rainha chega a R$ 5 mil, que as despesas totais beiram R$ 300 mil e menos da metade é originado de patrocinadores. Cada um dos 150 envolvidos tira dinheiro do próprio bolso e financia prazer de dançar. “A parte financeira não supera o amor, que é muito maior que o dinheiro”, garantiu-me o presidente. Eu, de penetra, não havia pago nada, desfrutei só da melhor parte, o amor.

O grupo dança em quase 30 festivais durante junho e julho. No meu caso, dancei numa apresentação não competitiva para não prejudicá-los nas suas pontuações. Seixas Soares, 35, diretor artístico, não perdeu o pulso com os brincantes um só segundo, nem comigo. Durante os ensaios, em meio aos cantos do grupo regional, ele sempre dava palavras de ordem. Ao mesmo tempo, Seixas sensibilizava, mostrando que o mundo quadrilheiro não é para qualquer um. Com isso, minha ansiedade de voar só aumentava. “Isso é como um feto, você cria e vê o nascimento, não dá para definir em palavras”, frisou.

E o cortejo encontra o público

O dia de lançar-me ao vento chegou. Troquei de roupa em meio ao cenário e adereços, na sede do grupo. Meu par não pôde comparecer, aí bateu aquele medo do imprevisto. A solução foi dançar de última hora com Kauana Teixeira, que me acolheu como uma professora. Ela me deu dicas, revisamos alguns passos e minha ansiedade só aumentava. Depois de duas horas de atraso, entramos em cena com todo gás.

Claro, eu errei muito e tive que arranjar um pique não sei de onde. Dançar com a indumentária é muito pior. Eu estava com um colete que devia pesar uns três quilos. Após 20 minutos pulando, minha cabeça latejava, meu corpo estava tão quente que até pensei em desistir. Mas, mesmo suando litros e sem fôlego para continuar cantando, não deixei de sorrir e dancei os 35 minutos previstos, tentando irradiar toda a garra ao lado dos meus companheiros, só não sei se consegui.

A fadiga e a dor no calcanhar apareceram no dia seguinte, mas posso dizer que valeu a pena. Eu já estava avisado. “Nossa batida é mais forte, essa quadrilha é de impacto, tem que cantar alto, os meninos voam dançando”, alertou-me o jornalista e brincante Cleiber Andade, 34. Depois disso tudo, acho que pude perceber ainda mais o valor das nossas quadrilhas profissionais, que não deixam de ser tradicionais por causa das cores e do brilho que ganharam com o tempo. Parafraseando Webert, vou tomar liberdade para dizer que hoje não sou mais só Danilo Castro, sou Danilo da Ceará Junino. Agora eu posso afirmar que também pude voar um dia.


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Saiba mais 

A quadrilha Ceará Junino já ganhou diversos festivais ao longo de sua trajetória. Em 2007, foi a quadrilha que mais ganhou títulos no Estado. Em 2010, foi campeã do Festival Globo Nordeste. Este ano, eles foram campeões interestaduais do Festival de Maracanaú com prêmios de melhores marcador (coreógrafo), casamento matuto, casal de noivos e regional (banda).



























Fonte: Matéria principal. Matéria secundária. (Jornal O POVO - Caderno Vida & Arte - 29/06/2012) Fotos: Igor de Melo.

7 comentários:

Rachel Teixeira disse...

adorei a matéria!!!!!!!!

Tania Alves disse...

Bom demais.

Gabriela Ramos disse...

Parabéns, Danilo! Sei q isso tem muito do teu esforço!

Gracinha Fabricio disse...

Boa Matéria Danilo Castro, conheço bem a Ceará Junino... fomos rivais diretos na época que eu dançava "Puxando Fogo"... muitos dos brincantes dela eram de outras quadrilhas que com o tempo deixaram de existir, como: Luar do Sertão, Beija-flor e a própria Puxando Fogo...

Boa Matéria, Parabéns!

Débora Marjorie disse...

Parabéns, pela matéria Danilo Castro
Quadrilha é isso! É + que amor é um sentimento que não dá pra explicar quando regional começa a tocar e coração a pulsar e uma alegria de contagiar que faz dançar até a alma. Beijos..

Domitila Andrade disse...

‎"Agora eu posso afirmar que também pude voar um dia." Que coisa linda, menino. Chega enchi os olhos d'água. Parabéns, Delícia da Ceará Junino. =*

Canteiro Pessoal disse...

Danilo, realmente, quadrilha é coisa séria!

Parabenizo-o pelos excelentes post's!

p.s.: Finalmente consigo comentar no seu cantinho. Tive que fazer uma atualização, e, por fim, aqui estou, contente e saltitante.

Abraços,
Priscila Cáliga