quarta-feira, 6 de junho de 2012

Fortaleza é nome de mulher


Genuinamente cearense e bem longe de regionalismos, o longa Rânia, de Roberta Marques, tem Fortaleza como cenário e personagem de uma trama poética que emana ânsia por liberdade














Danilo Castro - ESPECIAL PARA O POVO
danilocastro@opovo.com.br

Fortaleza não é só pano de fundo de um enredo. Fortaleza é personagem, que chora e ri junto à tríade das mulheres que protagonizam o filme através dos seus dilemas. Em Rânia, primeiro longa da cearense Roberta Marques, é possível enxergar as nuances múltiplas da Terra da Luz. Exibido na última segunda, 4, na mostra competitiva do 22ª Cine Ceará, o filme pareceu ter caído no agrado de muitos. Mesmo diante dos clichês líricos e de paisagens óbvias, que são tiros fáceis para compor belas imagens, há algo que está além, pois a natureza também tem voz. É uma delicadeza intensa, destemida, construída através dos silêncios e da trilha sonora, num uso excessivo de uma bela Fortaleza.

Rânia é mar, é sol, é sal, é vento, é calor, é terra. Rânia são as luzes da noite ou a sombra dos prédios desenhada com as pontas dos dedos no horizonte. Rânia (Graziela Félix) é uma menina simples, de periferia. Uma sonhadora que se deixa levar por sua natureza instintiva ao ponto de se ver dividida entre dois mundos atraentes aos olhos de quem mal viveu a vida: a dança profissional e a prostituição. Na verdade, ela quer apenas dançar. Rânia é um recorte na vida de uma adolescente que se transforma em mulher num curto pedaço de tempo em que, se o olhar não for atento, perde-se esse lugar difuso habitado entre menina e mulher.

As histórias das três personagens, Rânia, Zizi (Nataly Rocha) e Estela (Mariana Lima) se encontram por acaso numa dramaturgia lenta, onde os fatos demoram a se suceder. Talvez porque estejamos acostumados com outro ritmo, mais frenético. Ou talvez seja mesmo necessário mergulharmos destemidos para assistirmos tudo como se estivéssemos embaixo d’água, lentamente, deixando essa natureza ambígua penetrar-nos como água em esponja seca. Sem oportunidades e movida vontade de voar/dançar, a menina se vê sem saída.

A trama é literalmente contada pela protagonista. As suas inserções em off tornam-se tão poéticas, no sentido mais rebuscado, que a linguagem parece às vezes fugir da boca de Rânia. Aos meus olhos, acabou parecendo que o discurso narrativo não coube no cotidiano vivo que assistimos. Ficamos então diante de duas Rânias: uma é aquela que vemos, a outra é a que ouvimos narrar os fatos. Nada a ponto de tirar o mérito da obra.

Além de Graziela, que mostra um trabalho livre e despretensioso, um dos pontos fortes do longa é a cearense Nataly Rocha, que vive a dubiedade de ser mulher, mas que às vezes pensa como menina. Numa relação de amor e ódio com Dedé (Demick Lopes), sua personagem não é vitimizada, nem vilanizada, é a melhor amiga de Rânia, que a tem como um refúgio. A cada cena da atriz, há um ganho subjetivo na trama. É uma força latente, uma áurea que a envolve sem que ela mesma perceba. É uma potência cênica no olhar, na maneira como a poética do seu corpo se expressa. É tudo tão fluido que a “desatuação” na sua interpretação nos faz encher os olhos.

O filme, que já havia estreado no mostra Novos Rumos, no Rio de Janeiro, onde foi eleito o melhor, agora segue para o Hollywood Brazilian Film Festival. Sem dúvidas, a obra merece circular não só por mostrar mais uma faceta do cinema cearense, mas por trazer a ânsia por liberdade como ponto de conexão com a vida de qualquer sonhador. A narrativa é daquelas que fisgam todos os públicos. É um filme genuinamente cearense, mas bem longe de estereótipos

Fonte: Jornal O POVO - Cardeno Vida & Arte (06/06/2012)

2 comentários:

Felipe disse...

Realmente o filme Rânia é muito lindo e vale a pena ser assistido. Estamos diante de um filme bem realizado (em todos os sentidos) e que certamente representa uma evolução na qualidade cinematográfica cearense.

Nataly Rocha disse...

Adorei seu olhar de homem que fala do feminino.