segunda-feira, 18 de junho de 2012

La maldita teatralidad
















Quanto mais o extracotidiano é buscado para a cena, mais vou percebendo que o cotidiano também é carregado de teatralidade. A vida comum está sempre cheia de toques estranhos, surreais. Talvez seja preciso olhar atentamente ao dia-a-dia para encará-lo como potencialmente teatral. O grupo colombiano La Maldita Vanidad, que se apresentou no último final de semana com três espetáculos no festival Zona de Transição, do Theatro José de Alencar, colocou em foco uma linguagem completamente naturalista, mas que não deixa de ser essencialmente teatralizada.

Os espetáculos El autor intelectual, Los autores materiales e Como quieres que te quiera fazem parte de uma trilogia que aborda conflitos familiares. Os dois primeiros aconteceram no 10º andar de um prédio antigo no Centro, daqueles com elevadores de madeira, que rangem a cada andar. O lugar meio esguio, sujo, e um público composto por apenas 20 pessoas, parece ter casado perfeitamente com a encenação proposta. Tudo é muito simples, real e bem executado, sem sombras de misancenes, apesar do peso evidente da encenação, do "pacto da verossimilhança" com o espectador.

Em especial, o segundo trabalho apresentado, com texto e direção de Jorge Hugo Marín, tem como mote um assassinato que acabou de acontecer e três irmãos discutem sobre o que fazer com o cadáver. A história tem uma força dramatúrgica de pulsar mais forte o peito. É de agoniar a agressividade, o sangue, a comida cheirando no fogão, a louça quebrando, as ameaças de facadas, os tapas vistos assim, aos pés dos olhos. A quarta parede existe, mas por estarmos tão pertos, parece até que somos coparticipes da trama angustiante. O grupo, que surgiu em 2009, se apropria de diferentes espaços para apresentar suas obras. Talvez esse seja um dos motivos para que tudo esteja sempre tão vivo. É preciso se reinventar a cada encenação.

Esse clima sombrio, que instiga logo que chegamos ao local, vem da inspiração no filme Festim Diabólico, de Alfred Hitchcock. Mas o sucesso de um trabalho provém muitas vezes da maneira como ele começa e como se arremata. No caso, assim que o público entra no AP, o assassinato aconteceu há ínfimos instantes, não pegamos a história do começo, não sabemos de cara os porquês daquele crime, já entramos em um nível de tensão alto, em um clímax que vai crescendo ainda mais, tornando-se incontrolável. O desfecho também é um corte bruto, não se sabe exatamente o que acontece após a trama chegar ao seu auge. Essas estratégias parecem ter trazido justamente uma força teatral e inenarrável que potencializa a obra.

Nessas idas e vindas de pensamentos sobre o teatro, parece que a ideia de teatralidade se bifurca em dois conceitos: um é mais ligado a uma áurea, uma energia subjetiva que funciona muito bem cenicamente, a outra é visual, esteticamente chamativa, diferente do senso comum. No caso dos espetáculos do grupo, a segunda opção não cabe, pois o trabalho não difere em nada das coisas triviais do dia-a-dia, mas aos olhos de uma caixa cênica (por mais que seja a sala ou a cozinha de um apartamento) ganham uma estética atraente.

Ainda que, nos últimos anos, muitos grupos tenham buscado um teatro cada vez mais pautado em um intimismo ou o teatro como revelação de si em dramaturgias colaborativas, ainda mais na América Latina; ainda que as novas histórias sejam cada vez mais fragmentadas, surgindo de memórias ou de contribuições completamente confessionais à cena, que não necessariamente tem uma peça literária como pilar de um processo; as boas histórias (daquelas construídas com os elementos tradicionais de amarração de um drama) continuam sendo um bom mote para se teatrar com pés firmes. Não adianta fugir, a maldita teatralidade sempre estará presente.

Danilo Castro
18/06/2012

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Assista ao teaser do espetáculo Los Autores Materiales



Assista ao teaser do espetáculo El autor intelectual


Assista ao teaser do espetáculo Como quieres que te quiera 

3 comentários:

Felipe Sales disse...

Por que a estética naturalista deixaria de ter/ser teatralidade? Tão poucos grupos/artistas se arriscam nessa estética que quando encontramos um que desempenha com êxito a teatralidade naturalista nos surpreendemos.
Muito o lindo o trabalho deles. e olha que só vi um, exatamente esse do assassinato.

Danilo Castro disse...

Essa pergunta é justamente a mesma que eu faço, Felipe. Acho que a teatralidade, por mais crível e naturalista que uma proposta seja, estará sempre presente, e isso não é ruim ou bom. La Maldita Teatralidad é uma ironia-reflexiva.

Rogério Mesquita disse...

ótimas impressões Danilo!