segunda-feira, 23 de julho de 2012

A essência do ininteligível


Um lugar para ficar em pé, da primeira turma de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal do Ceará (UFC), é uma provocação ao estado lógico do teatro e à passividade do espectador, que é atordoado com a incoerência dramatúrgica da cena

Danilo Castro 
ESPECIAL PARA O POVO

Quando saímos de casa para um espetáculo de teatro, o que estamos buscando? Acomodados, no mínimo, procuramos uma história ou estória, um enredo inteligível. Mas será possível encenar sem contar uma trama lógica? É possível dizer sem significar ou vice-versa? Onde está o teatro, em quem faz ou em quem vê? Parece que o espetáculo Um lugar para ficar em pé, da primeira turma de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal do Ceará (UFC), consegue provocar perguntas infindas no seu público. Na eterna busca por respostas, só encontramos questionamentos, mas não daqueles que distanciam e sim dos que instigam.

Inspirado nas peças curtas do irlandês Samuel Beckett, o espetáculo é histórico para a cena teatral cearense. É um começo do curso com pé direito cravado no chão. A direção do chileno Hector Briones é tão sólida que a maturidade dos atores, dos mais recentes aos mais experientes, é visível. É tudo tão franco que o trabalho não ficou à mercê de distribuir momentos de destaque para cada um mostrar o que apreendeu num “festival de pequenos esquetes”, como é comum em espetáculos de formação. A fragmentação é contraditoriamente tão una que parece não haver forma melhor para justificar o bombardeio de informações.

O teatro do absurdo continua sendo uma boa estratégia para justificar a vida, que se mostra cheia de ilogicidades o tempo inteiro, por mais que tentemos negar procurando a razão das coisas. O espetáculo se propõe a despertar um novo jeito de perceber, que ultrapassa o inteligível para atingir um campo sensitivo. É um tipo de obra a qual precisamos nos deixar viver a experiência, em vez de ficar tentando o tempo inteiro compreendê-la. O que será que aquilo quer dizer? Por mais que eu tente aqui dizer em palavras, haverá sempre a representação de algo, que nunca será equivalente à “coisa” que me foi apresentada.

Como o público não é conduzido sob rédeas significativas, vou eu criar as minhas representações. Uma das mais belas cenas é o fragmento “Cadeira de Balanço”, que parece ser inspirada em A sagração da primavera (1975), da bailarina alemã Pina Bausch. Isso acontece após a rasteira que levamos no entremeio da apresentação, que até então se constrói brincando com possibilidades de jogos cênicos típicos do teatro mais cru, despojado, latino, com mais cara de ensaio. Entretanto, isso é superado abruptamente por uma massa de gente nua que se engendra meio tribal no quadro “Noite Lúcida”, lembrando um pouco de A Classe Morta (1975), do diretor polonês Tadeusz Kantor. Daí para frente é só entrega, sem forçação. Os corpos nus, disponíveis ao jogo meio ritualístico mostram quão maduros estão os atores, que por vezes mais parecem performers. As duas horas destemidas de cena talvez sejam reflexo dessa firmeza.

O formato do curso de Licenciatura em Teatro da UFC, que após dois anos de intensas disciplinas práticas constrói um espetáculo (sem esperar o curso terminar), mostra que a metodologia dá certo. Precisamos então abrir mais espaços, ocupar mais cenas, aparecer mais, porque somos muitos e caminhamos em um ritmo acelerado. Se o curso superior de Artes Cênicas do Instituto Federal do Ceará (IFCE), há cerca de uma década, foi uma ferramenta propulsora de artistas que hoje ganham a cena na cidade, temos com a UFC mais pés para demarcar área. Que sejam então criados esses lugares, porque em pé já estamos e cada vez mais firmes.

SERVIÇO

Um lugar para ficar em pé: últimas peças e outros fragmentos de Samuel Beckett
O quê: espetáculo a partir dos textos do dramaturgo de Samuel Beckett, encenado pelos alunos do curso de teatro da UFC
Onde: Teatro Sesc Iracema (rua Boris, 90 – Praia de Iracema - por trás do Centro Dragão do Mar)
Quando: A montagem continua em cartaz amanhã, às 20 horas, e no dia 25, às 17 e 20 horas. O Theatro José de Alencar (rua Liberato Barroso, 525 - Centro) também recebe o espetáculo na sala Nadir Papi Sabóia, com apresentações nos dias 26, 27, 28 e 29, sempre às 20 horas.
Entrada franca

2 comentários:

Vera Carvalho disse...

Assisti 03 vezes, achei o espetáculo maravilhoso. Chama atenção a sintonia dos atores em cena. Se ainda tiver um lugar para ficar em pé até o final das apresentações, irei novamente.

Ed Borges disse...

Li hj de manhã, e a crítica está ótima ;)