segunda-feira, 16 de julho de 2012

Elas não cabem em uma só

Rafael Tabosa e Christiane de Lavor vivem Lucylady
Dentro dos clichês, sempre é possível se reinventar, brincando com o que o teatro contemporâneo, eivado de uma efervescência de inovação natural, muitas vezes nega.  Em Uma de duas: a vida comum de Lucylady, espetáculo fruto do Projeto Sensorial, encabeçado por Christiane de Lavor, encontramos uma grande sacada executada de maneira simples. A obra é carregada de um humor leve, tipicamente cearense, e, ao mesmo tempo, profundo, característico nos textos de Rafael Martins. 

Duas mulheres em uma só? Uma só mulher com duas cabeças? Quantas Lucyladys existem naquelas personagens? Quantas Lucyladys existem em nós? Na incrível história das irmãs xifópagas (siamesas) não acontece nada demais. Nada. E de fatos tão comuns, aquilo cresce e se torna pitoresco, interessante aos olhos. Os corpos dos intérpretes da protagonista (ou das protagonistas) se engendram um no outro e nos levam a perceber os fragmentos daquela massa estranha que se compôs como uma só, sob as orientações do bailarino Fauller. Apesar de unas, cada corpo tem uma identidade e é nisso que o coletivo poderia se apegar ainda mais. 

Infelizmente, as comparações às vezes me são inevitáveis. Ainda que seja um espetáculo independente, pensei que estava diante de um trabalho do grupo Bagaceira. Não, não há problema algum nisso. Talvez seja esse apenas um reflexo da direção marcante de Yuri Yamamoto, que faz seus cartoons com os elementos cênicos ou isso pode ser fruto da escola dos artistas, que é a mesma. Lucy (Ricardo Tabosa) e Lady (Christiane de Lavor) são remanescentes do Bagaceira, já o diretor ainda faz parte do grupo.

É interessante pensar o quanto é possível trabalhar coletivamente dentro de projetos com identidade, mas que não necessariamente fazem parte de um grupo. São outras formas de fazer teatro, mas nem por isso se trata de uma obra de elenco qualquer com puro caráter mercadológico. É importante que mecanismos como esses sejam criados para que as possibilidades de diálogos artísticos sejam ainda maiores. Dessa forma, os editais de financiamento cultural podem abrir o leque para premiar projetos relevantes, independentemente de grupos que já se consolidaram em trajetória.

Outro detalhe simples e interessante do trabalho é a contrarregragem, que deixa de ser apenas um necessidade lógica da cena para se fazer fundamental na trama colaborativa guiada por Rafael. A imagem do Contrarregra (Ari Areia e Felipe Campos) se escreve com C maiúsculo. Faz-se necessária, justifica-se como elemento fundante de composição cênica, além de executar as tarefas simplesmente braçais e também essenciais.

O público parece estar mesmo diante de uma tela que exibe uma ilustração viva, tridimensional, concreta. E a narração em off de Ricardo Guilherme provoca a cena como nos antigos desenhos da Disney, onde os pândegos personagens mal tinham falas e seguiam a condução de um narrador que praticamente participava da trama. É um trabalho leve, é feito para rir, mas não é só para isso, nem perde sua densidade existencial por isso.

Danilo Castro
16/07/2012

Dica] O espetáculo está em cartaz no Teatro Sesc Senac Iracema  (Rua Boris, 90, Praia de Iracema) aos sábados e domingos de julho, sempre às 20h. Ingressos: R$ 12,00 (inteira) / R$ 6,00 (meia). Informações: (85) 3252.2215 / 3452.1242


5 comentários:

Camila Brandão disse...

É uma pena, não sta em Fortaleza pra ver esta obra prima... Mas, fiquei um pouco mais próximo com linda narrativa do Dan... Vc como sempre tem o dom de aproximar a arte das pessoas. Parabéns ao grupo...

Danilo Castro disse...

Camila, saudade de vc aqui em Fortaleza e que bom que não deixou de acompanhar o blog. Beijão!

Yuri Yamamoto disse...

Muito bacana suas observações e sobretudo como a peça lhe comunicou, tocou. fazer teatro dá muito trabalho, mas no final, quando conseguimos comunicar, nem que seja com uma só pessoa, já valeu muito a pena. Muito obrigado Danilo, pela disponibilidade e generosidade de escrever suas impressões sobre nossa peça. Grande abraço!

Aline disse...

ô peça chata!

Rafael Martins disse...

Obrigado pelas palavras, Danilo.