domingo, 12 de agosto de 2012

A casa que falou sozinha

















A Casa da Esquina, sede dos grupos Bagaceira de Teatro e Teatro Máquina, se tornou palco e foi lindo vê-la funcionando também como um espaço cultural. Que mais ações do tipo possam aquecer o lugar para além dos processos grupais dos dois coletivos responsáveis. Quem sabe um dia ela possa se tornar uma Casa da Ribeira, como fez o grupo Clowns de Shakespeare? Sendo mais ousado, quem sabe ela possa efervescer como a Cartucherie, do Théâtre du Soleil?

Bem, mas para não dar muitos rodeios, vou direto ao ponto da discussão que quero propor. O grupo EmFoco está mesmo transbordando de ideias instigantes. No espetáculo Jardim das Espécies, deslocar o público da usual sala de teatro para se enfronhar no cotidiano de uma residência é, no mínimo, curioso. Mas parece que o cotidiano, para ser de fato atraente, precisa conversar com quem se propõe a encenar dentro dele. Posso me expressar melhor: para que a proposição não seja um deslocamento arranjado, é preciso talvez respirar mais o que o espaço tem a oferecer e não apenas manuseá-lo.

Se só as atrizes estiverem dentro da casa, por mais aconchegante que ela seja, o jogo definitivamente não vai acontecer. É imprescindível que a casa, na verdade a principal personagem, também esteja dentro das atrizes, numa relação mútua. Diante da ausência dos aparatos cênicos comuns no teatro convencional (que ludibria e supre diversas carências através da poética das imagens), surge uma responsabilidade imensa para a tríade Georgia Dielle (Teresa), Lyvia Marianne (Célia) e Marie Auip (Elizabeth), que encabeça a trama.

A dificuldade de segurar o barco é evidente, visto que na itinerância interna e externa do trabalho o público fica meio disperso. Na cena externa de Lyvia, por exemplo, que caminha por todo o quarteirão para um solo à beira da calçada, menos de dez pessoas se disponibilizaram a caminhar junto, parecia que poucos queriam realmente saber do seu dilema. Preguiça de um público acomodado ou falta mais resistência, mais firmeza, mais verdade e conquista no drama das mulheres que oscilam entre a sensatez e a insanidade?

Mesmo sendo um espetáculo íntimo, para apenas 25 pessoas, pareceu-me que pouco houve essa conexão pessoal entre nós e elas. A proximidade física da obra não caminha paralelamente à subjetiva. Apesar do olho no olho, dos cheiros, do calor, do suor e de uma série de sensações nos inserem no trabalho aguçando nossa percepção de público ativo, que vivencia e não apenas presencia, ainda é preciso mais.

Mas que realidade doida essa que é toda invisível e cheia de teatralidade ao mesmo tempo. Quando elas faziam um bolo chocolate e ligaram a televisão, uma cena de novela mostrava justamente mulheres fazendo um bolo de chocolate. Essa é a potência do acaso e precisa ser muito bem aproveitada. Outro momento estranho e ótimo, que atordoa entre realidade e ficção, foi quando Georgia ligou o computador e entrou em uma sala de bate-papo para adultos. Em seguida, um homem se masturbou diante da webcam, enquanto todos nós assistíamos tudo em uma projeção no meio de nossas risadinhas perplexas.

Sim, é muito bom desterritorializar o teatro, criar novos modos de estabelecer pactos, mas é preciso encontrar força noutros pontos que ultrapassem o mote interessantíssimo criado pelo grupo. A dramaturgia envolvendo dilemas femininos ainda se mostra frágil, não cresce até onde poderia crescer. Os gritos, como quando somos enxotados, acabam saindo da garganta, não do corpo inteiro, da alma. O dramaturgista e encenador Eduardo Bruno, como prefere ser chamado, consegue levantar uma bela proposta cheia de questões, mas só uma boa pesquisa não sustenta uma encenação.

Danilo Castro
11/08/2012

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