sábado, 11 de agosto de 2012

A cidade como palco

O grupo cearense 13º ato rediscute a cena e rompe com os estereótipos do teatro de rua se enfronhando na cidade como dramaturgia
















Danilo Castro - ESPECIAL PARA O POVO

Antes de chegar ao local marcado, soube que estavam acontecendo assaltos na praça do bairro João XXIII. A polícia foi acionada. A situação abrandou-se, cheguei e nada aconteceu. Os burburinhos de uma comunidade distante dos polos culturais de Fortaleza foram se intensificando à medida em que o espetáculo Público Ato I, do grupo 13° Ato, ia penetrando no espaço. Ali, eu tive certeza do quanto se faz necessário intervir nessas regiões que muitas vezes ficam alheias ao teatro. Pude ver que a ideia de Teatro em Movimento, proposta pelo VIII Festival de Teatro Fortaleza (FTF), fez sentido. 

O teatro pode mesmo ser estabelecido em qualquer lugar. Quando nos vem à cabeça que Fortaleza é uma cidade com poucos espaços culturais, na contramão de um comodismo reclamão, o grupo (oriundo do curso de Licenciatura em Teatro do IFCE) se reinventa, atordoando a praça com histórias de noivas rodriguianas. Dirigido por Tomaz de Aquino, o coletivo foi descobrindo maneiras de preencher lugares desinstitucionalizados como espaços cênicos, transformando-os em solos de efervescência artística.

A Casa Juvenal Galeno, onde o grupo esteve em cartaz há pouco tempo com o segundo ato do espetáculo, existia apenas como uma casa secular herdada pelo Estado. O lugar é invisível ao lado do majestoso Theatro José de Alencar. O espetáculo Ivanov, do grupo Teatro Máquina, foi pioneiro ao realizar sua temporada lá, em janeiro. A partir disso, ações artísticas passaram a ser desenvolvidas sem serem uma politica estatal. A casa foi ganhando vida e vem sendo reinventada.

O grupo problematiza a cidade através da vivência sobre ela mesma, rediscute as artes cênicas como obras que atordoam o cotidiano. Na rua, não há pactos pré-estabelecidos. Quão belo é ver as senhorinhas saindo nas sacadas para ver a “confusão”, os borracheiros cantando as belas noivas ou os transeuntes perguntando se é teatro ou é realidade.

As noivas intervêm no cotidiano com toques líricos em uma esquizofrênica cidade que pulsa oscilando sobre suas diversas facetas. Elas se arriscam entre os carros, encenam recortes de suas tramas de amor em plena praça. O Parque da Liberdade, lugar que deu mote à construção dramatúrgica do trabalho, ainda é invisibilizado, por isso a pertinência da locação, mas os ganhos da apresentação na praça do João XXIII são valorosos. Cada lugar tem seu jeito de respirar, cabe ao grupo se disponibilizar ainda mais a ele.

Diante de tantas questões seguras mostradas através da pesquisa do grupo, como não deixar o estranhamento do público (em relação à teatralidade que as noivas levam consigo) ressoar apenas como estranhamento? Como fazer o trabalho não se tornar apenas uma notícia? Como não ser apenas alvo de gozação e chacota diante de um público que não necessariamente escolheu assistir o espetáculo? Como instigar o pensamento, a reflexão, diante de cenas mais fortes, dramáticas? Esse talvez seja mais um dos pontos onde o grupo pode se apegar na investigação.

Saiba mais

O grupo 13° Ato volta a se apresentar dias 17 e 31 deste mês no Parque da Liberdade, no Centro, às 17 horas.

Ponto de Vista (Danilo Castro)

O FTF vem sendo pensado coletivamente pelo movimento organizado de teatro. A conceitualização do evento foi definida em fóruns, de maneira democrática. Nesta edição, a ideia é descentralizar, levando teatro para quem não tem com foco mais uma vez na cena local. Sim, precisamos ser visibilizados. Mas será possível resolver todas as carências que o teatro local possui em um único evento? Será que temos uma produção cênica que abarque toda a programação, com 20 espetáculos locais e apenas sete de outros estados? Sim, mas já diz o ditado: quantidade não significa qualidade. Isso é em qualquer lugar, não apenas na cena de Fortaleza. Além disso, os coletivos de fora poderiam ter sido melhor aproveitados com debates ou oficinas. Afora seus espetáculos, bom seria poder dialogar com outras pesquisas. Uma pena as barreiras orçamentárias também implicarem nesse processo. A cidade e a classe teatral precisam do festival, mas priorizar espetáculos de excelência é tão importante quanto descentralizá-los e visibilizá-los. Nos seus altos e baixos, o FTF é também um momento de reflexão para que entremos de vez no hall dos grandes festivais brasileiros.

Serviço

Encerramento do VIII Festival de Teatro de Fortaleza Espetáculos: 
Enxurro, da Cia do Feijão (SP)
Horário e local: às 19h30, no Theatro José de Alencar (rua Liberato Barroso, 525 - Centro)

Na Corda Bamba, com Ary Sherlock e Antonieta Noronha
Horário e local: às 20 horas, no Teatro Dragão do Mar (rua Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema) 
Entrada franca.

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