domingo, 12 de agosto de 2012

A difícil dança das palavras no Ramadãça










Andei pensando muito depois de assistir o Ramadãça, mais um dos solos de Ricardo Guilherme. Não, não foi somente sobre o espetáculo que me desdobrei a refletir, mas principalmente sobre a experiência da apresentação no Teatro Cuca Che Guevara, na última quinta, 9. Teatro nunca é a mesma coisa também por conta do espaço. Cada lugar e cada público aguça o ritual cênico de uma forma específica.

Em meio ao transe de Ricardo sob a pele preta e o brilho da mãe-orixá, diversos adolescentes trazidos pelo Festival de Teatro de Fortaleza (FTF) acabaram vivenciando algo no mínimo estranho, visto que a resposta meio torta ao espetáculo era instantânea. Fiquei eu me questionando se aquele trabalho era para aquele público. Sim, pode parecer uma fala preconceituosa, reducionista, como se os estudantes da rede municipal não estivessem no mesmo nível da discussão que Ricardo propõe, mas não é aí onde quero chegar, nem é isso que quero dizer.

A encenação é elaboradíssima, de um requinte e solidez típicos no trabalho do ator, mas versar com os cruzamentos e distanciamentos entre Osama Bin Laden, Saddam Hussein e George Bush é um tanto complexo. Ainda mais pela proposta que caminha na contramão da “história para ser contada”. O texto em off da conhecida voz que preenche o espaço é por si disperso (e isso não é um problema) entre suas conexões e desconexões. É preciso fechar os olhos para ver com os ouvidos e não ser perder na prosa-poética e radical de Ricardo, que brinca com a sonoridade das palavras. A imagem lírica da rainha de Maracatu que despedaça sua Calunga como Medéia fez com os seus filhos atirando-os ao mar é de encher os olhos.

Entretanto, será então que basta apenas o FTF se preocupar em levar público para lotar o teatro sem pensar qual espetáculo e qual público vai presenciar aquilo? Foi em meio às zombarias e risos que a apresentação (nada propensa ao clima pândego que se instaurou) aconteceu. Na adolescência, há uma inquietação nata e a discussão pesada, rebuscada àquele nível, pareceu não ser nem um pouco assimilada naquele contexto, daquela forma. Creio que a justificativa de que o público ainda está em formação e que isso é natural no perfil do Teatro Cuca, definitivamente não cabe. O espetáculo exige uma maturidade e conhecimento histórico que é difícil de se ter durante a flor da idade em qualquer instituição de ensino, pública ou privada.

Na verdade, deveria ter talvez havido um estudo melhor na distribuição de espetáculos, espaços e turmas escolares. O processo formativo proposto pelo FTF nesse caso poderia ter sido estrategicamente pensado. A ideia de levar os estudantes ao teatro é maravilhosa, mas não basta apenas tirá-los da sala de aula para levá-los ao teatro sem refletir para que encenação os jovens estão sendo levados. Será que aquele público voltará ao teatro instigado pelo Ramadãça ou foi assistir o espetáculo apenas porque era melhor do que ficar em sala de aula?

Danilo Castro
11/08/2012

Um comentário:

Ed Borges disse...

Muito boa a crítica e a reflexão sobre o espetáculo. Essa questão do público era uma das coisas que fiquei pensando também em relação ao festival.