domingo, 12 de agosto de 2012

A essência fabulativa dos infantes










Com tantas crianças em cena, fiquei eu me questionando sobre os prós e os contras de envolver infantes em uma grande produção.  “Contras” é uma palavra injusta. Na verdade, há muitas especificidades e adequações a serem feitas quando o teatro carrega no seu corpo atores e atrizes mirins. Não me lembro de muitos trabalhos que trouxeram crianças para o palco entre os grupos de Fortaleza. Há nessas criaturinhas uma energia latente, um encanto inerente, quase impossível de não fisgar o olhar até do público mais disperso. Elas não precisam nem de palco para chamar atenção.

No espetáculo Peter Pan, da Comédia Cearense, um dos mais tradicionais grupos teatrais do Ceará, a cena se torna uma arena para a brincadeira correr solta. Algumas das crianças fazem parte do ponto de cultura Casa da Comédia Cearense, que vem intervindo diretamente na vida da população do bairro Rodolfo Teófilo. O teatro vem sendo usado também como ferramenta de humanização e resgate, formando os “mini-cidadãos” da localidade. Saber do engajamento do grupo com ações práticas de transformação social, já é louvável por si, para aplaudir de pé.

Dali podem brotar grandes profissionais como Lucas Cavalcante (João) e Rebeca Louise (menino perdido), que mostram uma disponibilidade e segurança de gente grande. Em cena, talvez o tutor veterano Luís Carlos Pedrosa (pirata) seja uma fonte de inspiração. Queria eu ter descoberto teatro ainda na infância, mas a timidez de meninote que enterra a cabeça entre os ombros só me deixou subir aos palcos pela primeira vez lá pelos 14 anos.

É, mas as artes cênicas são talvez as mais sedentas por fabulação, por interações entre linguagens, por possibilidades múltiplas que podem surgir a partir de composições com música, dança, artes plásticas e variantes. Ainda assim, o espetáculo é dos mais tradicionais, mesmo com os números musicais e com as inserções audiovisuais, a obra pouco ousa na inventividade nata do próprio enredo encabeçado pelo herói-menino imortal. A direção de Hiroldo Serra é básica, não arrisca na poesia da encenação.

A criança em nenhum momento pode ser subestimada com o óbvio. É preciso provocá-la, instigá-la a desvendar uma trama e não apenas servi-la com algo simplista, com cores encantadoras e boas piadas dentro de um enredo clássico. Isso acaba sendo refletido em todo o trabalho, esvaziando a proposta. Seria necessário desconvencionar mais, deixar o pensamento rolar solto para trazer muito mais que a representação que o texto adaptado por Walden Luiz pede. É preciso transcender.

As imagens também são texto, mas as do espetáculo replicam apenas o que já é esperado. O cenário, por exemplo, com seu jeitão estático, onde tudo existe na tentativa de reprodução da realidade, se torna não essencial, utilitário, e mal administrado, fragilizando ainda mais o trabalho. Talvez seja preciso descobrir como tornar a cena (incluindo figurino e iluminação) menos uma ambientação, menos indumentária, e mais obra de arte, que também fale por si, que também lance suas interrogações, que agucem a curiosidade e a capacidade fabulativa da criança.

Danilo Castro
09/08/2012

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