quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Tito redivivo


Espetáculo de Ricardo Guilherme sobre a vida do frei cearense que foi torturado pela ditadura e virou símbolo de defesa dos direitos humanos ganha nova versão, financiaada pelo Ministério da Justiça
















Danilo Castro - ESPECIAL PARA O POVO

Da Terra da Luz, um homem simples, de olhar leve, membro da Juventude Estudantil Católica, migrou para Recife, depois ingressou no noviciado dos dominicanos, em Belo Horizonte, e finalmente chegou a São Paulo, onde se formou em Filosofia na USP. Lá, envolvido com os protestos contra a ditadura, foi preso por participar clandestinamente do congresso estudantil da União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1968. Durante cerca de 30 dias, o frade fortalezense, tido como terrorista até mesmo no Vaticano, sofreu sob as torturas do regime militar. Exilou-se do Brasil. A reclusão serviu para que ele escrevesse sua experiência e se tornasse símbolo dos direitos humanos no País.

Em 2012, quadro décadas depois, a jornada do frade cearense será novamente revivida através do espetáculo Frei Tito: Vida, Paixão e Morte, de Ricardo Guilherme. A partir de uma parceria entre o Instituto Frei Tito de Alencar Lima e o Ministério da Justiça, que financia o projeto de remontagem da peça (dentro do calendário oficial que celebra os 30 anos da Lei da Anistia), o espetáculo será encenado em Fortaleza no fim de agosto, marcando a pré-estreia de uma turnê nacional depois da qual, em outubro, a peça retorna à Cidade.

A peça foi escrita em 1987, recebendo menção honrosa pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) no mesmo ano. Em 1992, houve uma versão do espetáculo montada pela Fundação Brasileira de Teatro, dirigida pelo cearense B. de Paiva, em Brasília. Na época, Ricardo integrava o elenco com o personagem Rolland, psiquiatra francês de Tito.

A remontagem do espetáculo possui o crivo da Comissão da Verdade e da Comissão da Anistia, nomeadas por Dilma Rousseff para investigar crimes cometidos por agentes de estado entre 1946 e 1988. Ricardo Guilherme conversou com o Vida & Arte sobre o assunto, falou sobre o projeto, a infância e sua relação direta com o Frei Tito. (colaborou Demitri Túlio)

Arte além do relato:  Ricardo Guilherme fala de sua relação com Frei Tito e defende o poder do teatro de resgatar a memória para além do relato histórico

O POVO - Qual é a sua ligação com Frei Tito?
Ricardo Guilherme - Tenho com a família Alencar Lima estreita relação. Ainda criança, nos anos 1960, fui aluno de Nildes de Alencar Lima (irmã de Tito), no Colégio Christus, no primeiro ano do primário. Durante toda a minha infância, a residência de meus pais era vizinha da casa de Nailde de Alencar Lima (outra irmã de Tito), amicíssima de minha mãe e com quem convivi muito. 

OP - A peça foi escrita em que condições?
Ricardo - O texto foi escrito nos anos 1980 e censurado. Houve uma mobilização nacional (nos jornais Folha de São Paulo e Tribuna da Imprensa do Rio) por sua liberação, com participação da atriz Lélia Abramo e do jornalista Paulo de Tarso. A peça é baseada em pesquisa e em longa entrevista que fiz com a Nildes. Ela é inclusive personagem da peça. O texto é uma espécie de reportagem teatral, no qual há trechos dramáticos, de reconstituição da trajetória política de Tito, e trechos épicos, com narrações, comentários, análises.

OP - Por que remontar o texto dez anos depois da primeira versão?
Ricardo - A ideia de remontar partiu de Lucinha Alencar (sobrinha de Frei Tito, minha amiga de infância), hoje presidente do Instituto Frei Tito de Alencar Lima. É o Instituto que gerencia o projeto. Lucinha me procurou para explanar a ideia de remontagem da peça (com direção que também seria minha) e eu propus que a encenação fosse realizada pelo Grupo Formosura de Teatro, com direção de Graça Freitas. Esta atual encenação não é - nem mesmo no texto - uma “reprise” da primeira montagem. Eu reescrevi o texto: há novas cenas, novos enfoques e inclusive uma nova estrutura. Teremos um novo Frei Tito: Vida, Paixão e Morte.

OP - Na primeira versão, você atuou como Rolland, psiquiatra francês de Tito, e nesta versão, qual seu papel no espetáculo?
Ricardo - Não há um personagem específico. Eu atuo como um ator em cena, a narrar, a comentar fatos, a informar sobre espaços da ação e contextos sócio-políticos. A montagem está sendo ensaiada por um grupo que tem quase 30 anos de atividades. O elenco é formado por atores que há anos trabalham juntos e integram este grupo. No elenco, estão Ronaldo Queirós, Leonardo Costa, Maria Marina, Maria Vitória, Graça Freitas e eu, como participação especial (já que não pertenço oficialmente ao grupo), e Rami Freitas (músico e baterista). A orientação cênica é minha.

OP - Além do espetáculo, que outras ações estão previstas no projeto?
Ricardo - O edital do Ministério da Justiça financia processos de montagens e, até agora, estão previstas quatro viagens, além da temporada em Fortaleza. A excursão abrange: Recife, Vitória, Porto Alegre e Goiânia. Também financia montagem de uma exposição fotográfica sobre a tortura nos anos de chumbo, feita por artistas europeus a partir de relatos de Tito, um livro sobre ele e publicação da peça. 

OP - O que significa ter, junto à Comissão da Verdade e Comissão da Anistia, uma peça de teatro?
Ricardo - Subsidiar o trabalho de resgate da memória, levando-se em consideração que a arte (e no caso específico: o teatro) produz saberes que transcendem o relato, a descrição, o testemunho. Por ocasião da pré-estreia, estarão na plateia, todos os membros da Comissão da Anistia.

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