quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Caleidoscópio tecnopop ou os interessantes indigestos


Cada espaço tem uma vida invisível latente. Na verdade, nós é que somos um pouco cegos e não percebemos detalhes do dia a dia que são potentes armas cênicas. Apresentar-se na rua significa também estar disponível a ela. Há uma dinâmica independente em locais abertos, onde não há acordos ritualísticos pré-estabelecidos com o público. Não basta descentralizar levando teatro para qualquer lugar se não houver também um entendimento do fluxo que cada espaço propõe. Afinal, nem todas as praças são iguais.

Após duas horas de atraso, o espetáculo O que mata é o costume, do grupo Nóis de Teatro, entrou em cena na Praça do Mucuripe, ao lado da Igreja da Saúde. A justificativa para a demora é plausível: o pároco só permitiu apresentação após o término na missa, pois o barulho atrapalharia. Aos meus olhos, tal impedimento já era espetáculo, a cidade mostrando que pulsa. Com a possibilidade de troca da locação, houve mais demora para a montagem do espetáculo finalizar-se. No ritmo de um festival, é praticamente impossível atentar a tantos detalhes, mas compreender a especificidade de um espaço comunitário e penetrá-lo como água em esponja é mais aconchegante que entrar sem pedir licença.

Altemar di Monteiro é arrojado, irreverente, propõe uma releitura de Aquele que diz Sim e Aquele que diz Não (1930), de Bertolt Brecht, ao som de Beyoncè, Rihanna, Britney, Adele, Madonna, Michael Jackson, dentre outros ícones pops. Nas lacunas estrategicamente deixadas no texto do dramaturgo alemão, o coletivo (da Granja Portugal, com muito orgulho) encaixou sua visão caleidoscópica de um mundo tecnológico, pop, descartável, erótico, alienado, urbano, conservador, machista, violento...

O público é convocado à reflexão, questionado sobre seus costumes, como na cena onde a atriz Edna Freire encena a decisão sobre o seu próprio corpo, abortando o filho. São temas infindos, alguns polêmicos, outros nem tanto, em um espaço frenético numa estética superabundante. É uma overdose sígnica no meio da rua. São tantas coisas ao mesmo tempo, que mal dá para digerir tudo. É estranho ao mesmo tempo em que é interessante por romper com os estereótipos do teatro de rua, muitas vezes marcado por uma dramaturgia simples, cômica, lúdica, musical e regionalista.

Os aparatos tecno-cênicos, como câmeras fotográficas, filmadoras, DVD, aparelhos televisores, controles remotos e microfones instigam na mesma proporção em que colaboram com o caos. Sim, o caos proposto é maravilhoso, mas paradoxalmente talvez precise ser um “caos organizado”. Será possível? Além disso, é necessário pleno domínio técnico de toda a parafernalha trazida à cena para que não haja falhas que prejudiquem o andamento da encenação.

Institucionalizar em um lugar desinstitucionalizado pode não ser uma boa estratégia. Talvez seja melhor não criar pactos para o início e o término dos atos, como apresentar o elenco, criar regras. Elas falam por si, se estabelecem sozinhas, e os atos podem ser melhor arrematados, porque a forma proposta é riquíssima, plural, cheia de possibilidades, mas o grupo ainda está inferior à própria obra. Nada que não se conquiste com mais chão, elaboração e refinamento do produto valioso que o coletivo construiu.

Danilo Castro
08/08/2012

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