segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Engenharia antropológica









A arte é inconteste ferramenta de transformação social. Normalmente ela surge de uma problematização, de uma inquietação pessoal - ou coletiva - e funciona didaticamente como instrumento de protesto. Mas áurea do produto artístico está talvez à frente de uma comum reinvindicação. Isso porque a arte não lida somente com o racional dizendo o que é certo ou errado em uma sociedade cheia dos seus estigmas.

Com a arte, é possível atingir o ilógico, o sensitivo, um campo subjetivo que fisga noutra relação afora a conscientização moral do protesto. Quando ela é utilizada como bandeira de uma militância que batalha por uma população oprimida, há um risco considerável de se cair no aspecto panfletário de uma causa. Combater a opressão pode se tornar tão intenso por parte de quem se propõe a protestar, que a luta pode se transformar em briga e o oprimido, em opressor.

No espetáculo Engenharia Erótica: Fábrica de Travestis, o ator e diretor Silvero Pereira (Gisele Almodóvar) consegue ultrapassar a causa para mergulhar afundo nas nuances dos comportamentos humanos, sejam eles homo, hetero, bissexuais e variantes, quem sabe. A nossa percepção é atordoada com relatos de uma realidade presente no nosso cotidiano, mas que a gente muitas vezes não enxerga ou finge não perceber. As figuras ambíguas e imponentes das travestis são negadas diariamente, colocadas em um lugar de conforto para a população heteronormativa: o submundo, a escuridão, a prostituição, a violência... Afinal, são elas “aberrações sociais”, a marginalização é o que lhes cabe.

Ainda que o espetáculo tenha protelado para começar devido ao excesso de público que o artista conquistou em Fortaleza (algo nem sempre visto na cena cearense), ainda que as falhas técnicas tenham atrapalhado a apresentação, dificultando a costura dos quadros, As Travestidas já se firmaram como uma referência do teatro local. Isso porque a dramaturgia fragmentada, as inserções audiovisuais e os números típicos de boates gays a la teatro de revista, ao mesmo tempo em que expõem dilemas pesados, cruéis, enfrentados no dia a dia das travestis, não as vitimizam. Elas são humanizadas e todo brilho, cores e áurea que carregam naturalmente consigo nos são revelados. A disposição da plateia em corredor propõe uma mistura entre passarela e rua, espaços de admiração e repulsa.

A pertinência do trabalho se justifica ainda mais quando fundamentalistas confundem a luta dos LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) com uma “ditadura gay que estão querendo impor no Brasil”, como afirma o vídeo-depoimento de Ronaldo Cezar Chaves, exibido no espetáculo. Após a descabida polêmica do Translendário, onde os atores-transformistas reproduziram em páginas de um calendário imagens clássicas no mundo (algumas ditas religiosas), o documentarista se manifestou desmerecendo a ação, que é mais um ramo da pesquisa encabeçada por Silvero, bem como os curtas Glossário 1ª e 2ª lição, dirigidos por Fábio Vieira.

Não dá para comentar Silvero sem estar contaminado pela admiração que tenho pelas suas obras, pela sua pesquisa, pela honestidade e alegria com que encara seu ofício. Há quase uma década, no solo Uma Flor de Dama, construído com mote de Caio Fernando Abreu, estava ele se descobrindo naquilo que viria a ser talvez o alicerce de sua carreira propulsora.  Basta olhar Denis Larcerda (Deydianne Piaf), Jomar Carramanhos (Verònica Valenttino) e Diego Salvador (Yasmin Shyrran) como frutos potentes, como prole de Silvero, mas que estão ganhando cada vez mais independência e reverberam seu trabalho, sua arte-militante.

Danilo Castro
06/08/2012











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