quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Os caquinhos de um bar


“Drama, etimologicamente, significa ação”, repetia como um mandamento irrevogável o professor Danilo Pinho, do curso de Artes Cênicas (hoje Licenciatura em Teatro) do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE). De lá, eu saí junto aos muitos artistas que se uniram em grupos diversos que vêm ganhando a cena pela cidade. Dentre eles, o Majestic, que se apresentou no Festival de Teatro de Fortaleza com o ex-espetáculo de formação Majestic Bar, hoje independente, dirigido à época por Sidney Souto.

Dentre todas as produções que o curso gerou nos últimos anos, esta é a mais duradoura, sem dúvidas. Entre substituições naturais, idas e vindas, o trabalho continua de pé, firme. Bom seria se fosse fácil manter unido um grupo de artistas oriundos de uma turma de formação pedagógica, mas na arte, cada cabeça é uma sentença. Os ideais artísticos muitas vezes não são compartilhados se a união acontece pela conveniência pedagógica, não por intuição. Manter coeso por longos anos trabalhos deste tipo de origem é tarefa árdua.

De fora, muitos comentam que cada espetáculo tem seu tempo. Continuar uma obra por vaidade ou por apego definitivamente não é bom. Mas quem somos nós para julgarmos assim, se estamos de fora? Atrevidos, no mínimo, porque a durabilidade do trabalho deve ser motivo de orgulho, diante da realidade do teatro cearense, que poucas vezes consegue manter seus espetáculos vivos por muito tempo. Uma série de motivos que interfere na sustentabilidade das obras justifica, mas não convêm discorrer sobre agora.

Bem, mas me referi ao “drama” inicialmente para usá-lo da maneira como ficou significando afora a etimologia emblematizada por Danilo Pinho. Início, meio e fim são as clássicas (e contestáveis) estruturas que dão alicerce ao teatro tradicional, dramático. Entretanto, cada vez mais, o teatro vem percebendo quão desbravador é mergulhar em pesquisas que não necessariamente partem do texto, em dramaturgias colaborativas, deshierarquizadas dentre os elementos que compõem a cena.

Apesar disso, uma boa trama fincada no esquema apresentação-desdobramento-nó-clímax-desenlace ainda é um lugar seguro para pisar. Mesmo com o potencial da “onda pós-dramática”, o tradicional continua com seu valor atávico. Em um bar, muitas histórias se desenrolam, das mais bobas às mais absurdas. A bebida e a animosidade da confraternização propulsionam ainda mais a áurea inventiva do espaço, mas a ausência de um fio condutor parece ser o que faz o trabalho do grupo caminhar oscilando entre picos e depressões o tempo inteiro.

Isso seria um erro? Não, é uma opção. Haveria outro modo de costurar a trama sem deixá-la como uma colcha de retalhos, com os resquícios de um trabalho tipicamente de conclusão? Não sei. Uma garrafa foi atirada ao chão, estilhaçando-se em pedaços miúdos. Alguém os encontrou e resolveu remontar a garrafa, mas parte dos cacos desapareceu, aí não deu para colar tudo. Essa é uma metáfora boba, mas que é a síntese do meu pensamento. Existem reais conexões entre as cenas ou elas foram dispostas apenas de maneira conveniente? O drama etimológico não sustenta o drama usual.

Outros questionamentos me rondaram acerca da obra. O que quer dizer o trabalho? O que ele propõe? Quais problematizações? O espetáculo parece trazer questões dispersas. Lembro quando Sérgio de Carvalho, da Cia. Do Latão, comentou na aula inaugural da Escola Pública de Teatro, que às vezes nos deixamos levar por encenações que não possuem seus intuitos estabelecidos. Mesmo que o objetivo seja plural, isso precisa estar claro. Caímos numa vibe processual, depois mercadológica (no sentido de fazer o trabalho circular, aparecer), e pouco refletimos sobre o produto construído, sobre onde queremos chegar.

A plástica sedutora e azulada da noite conquistam através do cenário, da iluminação, dos números musicais embreagadamente belos e irresponsáveis. O famoso tango a três de Denise Menezes, Marcos Bruno e Izabela Wégila e algumas cenas dos mendigos bufonescos (Aldrey Rocha e Lucas Alexandre) compõem momentos cativantes, seguros, maduros. Mas aos poucos o espetáculo vai se diluindo, perdendo suas virtudes em meio aos vácuos que os fragmentos carregam entre si.

Danilo Castro
09/08/2012

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