segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Estética da dor


Para refletir sobre a dança Butoh, o grupo Teatro Mimo e o Curso de Psicologia da Fanor realizam seminário. Do Japão ao Ceará, a ideia é difundir o assunto e encontrar as conexões e paradoxos entre vida e morte







Danilo Castro - ESPECIAL PARA O POVO

Por que fugir da dor? Por que negar as angústias, as fragilidades, as frustrações, a agonia, o desespero, a morte? Para compreender mais desse universo sombrio inerente à humanidade, o Butoh, de origem japonesa, apropria-se das enfermidades que atormentam os homens, evidenciando-as e transformando-as em arte. No intuito de discutir as reverberações, no Ceará, dessa dança que surgiu com a destruição oriental do pós-guerra, começa amanhã o seminário Estéticas e Sombras: experiências pós-butoh no Ceará, encabeçado pelo grupo Teatro Mimo e pelo Curso de Psicologia das Faculdades Nordeste (Fanor). 

Em meados da década de 1940, chegava ao fim a Segunda Grande Guerra que devastou populações em diversas partes do mundo, mas para Hiroshima e Nagasaki, no Japão, era apenas o começo de um sofrimento que até hoje tem suas sequelas. Mais de 200 mil pessoas viraram pó. Na década seguinte, Tatsumi Hijikata e Kazuo Ohno criaram uma dança obscura, que trabalhava com a ideia de corpos fantasmagóricos, esvaziados, disformes, contaminados pela poeira atômica. A manifestação de extrema potência imagética ganhou adeptos pelo mundo, incrementou-se ao expressionismo alemão e, desde a década de 1980, há indícios de práticas similares no Ceará.

Mas, qual a relação de uma dança tão distante e exótica com o homem cearense? A terra da luz e o calor no Estado são motivos orgulho para muita gente, mas o professor de psicologia André Feitosa propõe uma discussão paradoxal entre vida e morte, transformando luz em sombras. “Aqui nós morremos de sol, as vacas morrem de sol, os homens morrem de sol. Nossa história está entorno do excesso de luz. O sofrimento é legítimo e o Butoh é um modo de sentir e codificar o mundo sombrio”, provoca.

O psicólogo explica que, no decorrer das gerações, a humanidade vem sendo condicionada a agir de maneira extremamente racional. “Há um projeto de homem a partir da razão que quer afastar a agonia da nossa vida. A narrativa comum não suporta esses sentimentos e emoções. Então é preciso recorrer à vida, ao Butoh, para corporificar uma cena de tamanha destruição”. Essa é a pertinência de fazer a dança japonesa reverberar noutros espaços. Ele explica que, para o homem se compreender, é preciso também evidenciar sua dor, em vez de apenas negá-la, ofuscando-a com ritos ludibriosos de exaltação à felicidade.

Pelos fluxos de idas e vindas que as linguagens contemporâneas passam cada vez mais, fica impossível não se deixar disponível para aglutinar diferentes culturas em uma obra. É a partir da ideia de hibridização que o Teatro Mimo caminha. Tomaz de Aquino, diretor do grupo, explica que o Butoh se adapta às peculiaridades de cada contexto. “Não é uma simples reprodução. Não tenho como fazer um Butoh totalmente japonês, pois estamos noutro momento histórico, noutro lugar. O Butoh é uma dança pessoal, os praticantes vão ressignificando de acordo com aquilo que é mais potente na sua civilização”, afirma.

No grupo, que trabalha essencialmente com o teatro físico, focando em práticas corporais, o Butoh foi uma descoberta ocasional. Aos poucos, durante seus treinamentos, o coletivo foi percebendo a ligação que tinha com a dança. “O corpo é o foco de pesquisa do grupo, a gente assimilou o Butoh diretamente com a mímica. Agora, tentamos descobrir nessa ‘dança às sombras’, como encontrar esse estado de presença evidenciando a morte. Então, trabalhamos com a exaustão física e com a energização em corpos dilatados”. O resultado da pesquisa, que se encontra em processo, culmina amanhã no espetáculo Sakura Matsuri: O Jardim das Cerejeiras, apresentado às 20 horas seguido de debate.

De acordo com Tomaz, o intuito do seminário é principalmente difundir a dança e promover debates e reflexões sobre os temas, já que a formação é também um dos princípios do grupo. “A gente pretende criar polos de discussão sobre o assunto e entender como a dança vem se reverberando aqui”. André Feitosa explica que o seminário é voltado não só para artistas, mas também para pesquisadores de várias áreas. “Queremos entender a estética como ciência e fazer uma interlocução intelectual com a Cidade e não somente com artistas”, convida.

ENTENDA A NOTÍCIA

Dança surgida no Japão pós-guerra, que ganhou o mundo na década de 1970. Criada por Tatsumi Hijikata (1928-1986) e Kazuo Ohno (1906 -2010), é também inspirada nos movimentos de vanguarda: expressionismo e surrealismo.

Saiba mais

O ex-bailarino Fabão, na década de1980, foi um dos precursores ao introduzir práticas com referências ao Butoh no Ceará. Posteriormente, a bailarina Silvia Moura passou temporada no Japão para fazer residência com Shimitsu, do coletivo Gekidan Kaitacha. Atualmente, os cearenses Juliana Weyne e David Limaverde têm pesquisas voltadas para a dança japonesa, além do diretor Tomaz de Aquino. David já fez residência com Atsushi Takenouchi e é mestre em Estudos da Performance nas Universidades de Amsterdã e Helsinque, onde pesquisou o Jinen Butoh.

Subjetividades e percepções

David Limaverde, performer e arte-educador

Independentemente do nascimento do Butoh, acho que essa busca dos performers em doar experiências de Vida/Morte, Criação/Destruição, Dor/Prazer estão em todo lugar e em vários códigos corporais. Atsushi Takenouchi (meu mestre) diz que há Butoh original ou não, e não há bom ou mau Butoh - o importante é que o performer mostre sua existência para o público. Assim, a comunicação é feita entre subjetividades e percepções. Acho que a dança e o teatro contemporâneos no Ceará têm se alimentado de algumas experiências que outras pessoas tiveram com Butoh, também acho que os artistas preferem ter o Butoh como uma de suas ferramentas de trabalho corporal do que assumir seus trabalhos de fato - pois atrai um ‘peso’ desnecessário, porque automaticamente o público e a crítica os julgam, comparando-os com os mestres japoneses. Cada pessoa, interessada pela dança de origem japonesa, no Ceará deve encontrar seu próprio Butoh.

Serviço

Seminário Estéticas e Sombras: experiências pós-butoh no Ceará
Quando: Amanhã e quarta-feira, a partir de 13h
Onde: Auditório do Dragão do Mar (Rua Dragão do Mar, 81 – Praia de Iracema)
Inscrições gratuitas na hora do evento. O ingresso para o espetáculo do Teatro Mimo é R$ 2 (inteira) e R$ (1 meia).
Outras informações: 8699 9431


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