terça-feira, 11 de setembro de 2012

Forma e conteúdo desmanchados


















Danilo Castro - ESPECIAL PARA O POVO

Após a apresentação do espetáculo gaúcho Dia Desmanchado, do grupo Teatro Torto, fiquei pensando sobre as relações entre forma e conteúdo nas artes. O trabalho se apresentou na 19ª edição do Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga - que segue até sábado - e circula pelo Brasil a convite da Mostra Palco Giratório, do Sesc. O espetáculo é um solo do ator Marcelo Bulgarelli, que vive um homem esperando uma mulher misteriosa, como quem espera Godot. A angústia da solidão o leva a momentos epifânicos que resultam em uma composição cênica codificada em primazia.

Diante da espera do personagem solitário, a encenação onírica dirigida por Tatiana Cardoso se propõe a misturar percepções do passado, presente e futuro. O trabalho é livremente inspirado na obra O ensaio, do dramaturgo americano Benjamin Bradford e mostra-se como uma ode ao não-verbal, onde o corpo do ator exala seu texto mais do que a voz ou qualquer outro signo do trabalho.

Diante de um objeto artístico, o espectador se questiona sobre os significados da proposição ou simplesmente deixa-se levar pela experiência do contato com a arte. Mais importante do que a maneira como algo nos é transmitido, é a essência do discurso. A forma é fundante para o processo, para o artista. O espectador deseja apenas desfrutá-la. Onde o trabalho deseja chegar? Qual a pertinência da discussão que o espetáculo pretende fomentar? São perguntas que provavelmente já possuem respostas bem amarradas, mas que se tornam supérfluas diante da pesquisa física do grupo, que grita mais alto que o próprio assunto do espetáculo. Talvez seja preciso trabalhar para que a obra não se torne uma demonstração técnica.

Bulgarelli é daqueles atores que emanam disciplina e entrega no seu trabalho milimetricamente coreografado a partir dos princípios da biomecânica, instaurados pelo russo Meyerhold. Tais métodos pensam no corpo do ator como uma ferramenta que compõe movimentos amplos, intensos, mas que não partem do psicológico para aprofundamento da ação. A conversa ao fim do espetáculo se faz fundamental, mas queria eu ter ido embora do Teatro Rachel de Queiroz sem precisar de uma explicação teórica do que se trata o trabalho. Pensar o teatro também como formação é de suma importância, mas desmanchar uma obra com a explicação do que ela quer dizer pode cercear o que um espectador livre fabula sobre o que vê ou o que vive.

Uma obra deve falar por si. Mais do que a técnica executada com excelência, nós, como público, desejamos simplesmente ser tocados pela essência da proposição e não pela forma com a qual ela é dita, executada. O argumento dramatúrgico talvez precise se sobrepor à bela encenação cheia de estímulos imagéticos e com um trabalho físico de excelência do ator, que dança nas suas ações extracotidianas.


SERVIÇO

XIX Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga (FNT)
Quando: até sábado (15), em Guaramiranga
Acesso gratuito
Informações: (85) 3321 1405 / (85) 8722 2677 
Programação completa em: www.fntguaramiranga.blogspot.com 

8 comentários:

Felipe Sales disse...

eh isso mesmo. mas ainda assim um bom espetáculo para ser visto!

Danilo Castro disse...

É, Felipe, é um excelente trabalho. Uma aula também. =]

Regis Torquato disse...

"o espectador se questiona sobre os significados da proposição ou simplesmente deixa-se levar pela experiência do contato com a arte".

A gente sente e o Danilo traduz em palavras.

Deixar-me levar pela experiência estética de "Dia Desmanchado" foi a melhor opção. A plástica do espetáculo é incrível.

E Danilo,
Parabéns pelos escritos, todos eles.
Ando acompanhando aqui e acolá e ando orgulhoso também.

Abraço.

Danilo Castro disse...

Regis, maravilha sua passagem por aqui. Esse blog é pra gente discutir, pensar teatro. Obrigado pela contribuição.

Danilo Castro disse...

Regis, maravilha sua passagem por aqui. Esse blog é pra gente discutir, pensar teatro. Obrigado pela contribuição.

Danilo Castro disse...

Regis, maravilha sua passagem por aqui. Esse blog é pra gente discutir, pensar teatro. Obrigado pela contribuição.

Camila Vieira disse...

Danilo, concordo quando você fala da técnica, mas não acho que ela chega a gritar mais alto. Eu vejo uma organicidade ali, no sentido da criação de um universo outro (para além do real) e nisso ele me ganhou. O que o espetáculo me provocou foi mais uma experiência de criação de mundo, mais do que uma história bem definida. É como se eu visse ali algo criado, em vez de apenas reproduzir o que está no mundo (como eu vi muito num certo tipo de interpretação realista, histriônica e até caricatural, explorada no Sebastião, por exemplo). E para o universo criado de Dia Desmanchado, talvez nem precise de uma explicação maior (e concordo que o debate poderia ter explicado menos as intenções das cenas - eu acho que quem constroi isso é o espectador - daí a força do espetáculo, que é aberto para que as leituras aconteçam).

Danilo Castro disse...

Camila, vc é um doce. Muito interessante ver como as percepções em cima de uma obra serão sempre variáveis. Bem, mas meu intuito é fazer uma análise assim como a que vc fez nesse simples comentário. Que não seja valorativa/impressionista e que provoque uma discussão. Obrigado pela contribuição.