terça-feira, 9 de outubro de 2012

Espetáculo para se (vi)ver

Foto de Victor Augusto
Vivemos tempos onde se faz cada vez mais necessário discutir a Cidade, não só pelo período eleitoral ou nossas mazelas rotineiras, mas também pelo debate que os movimentos culturais organizados em Fortaleza propuseram nos últimos meses. Uma efervescência inquietante tem tomado conta dos nossos coletivos artísticos e as produções se posicionam mais firmes na cena da Cidade. Se hoje a pluralidade artística lampeja mais evidente em Fortaleza, não é simplesmente porque está havendo uma ascensão cultural natural, mas porque, num ato de desespero, a cultura quer sobreviver, mostrando suas fortalezas muitas vezes invisibilizadas.

Em todos os tempos, sempre haverá necessidade de termos a Cidade como mote nos seus fluxos e contrastes. O Nossa Cidade, novo espetáculo do Coletivo Soul, é uma ode à experiência de viver Fortaleza com outros olhos, daqueles que não são empedrados pelo cotidiano. O trabalho dirigido por Thiago Arrais é ofuscado diante da beleza própria da vida, essa sim sempre insubstituível, mesmo quando não a enxergamos. Ver um cortejo de quase duzentas pessoas invadindo a noite pacata e suburbana no Centro de Fortaleza, ver cidadãos sujos – sim, cidadãos - cheirando cola, prostitutas sorridentes, homens bêbados saindo de bordéis, vira-latas no seu duro ofício, espectadores celebrando o evento com vinho, e me ver no meio disso tudo, isso sim é o espetáculo.

















Precisamos nos arriscar mais, porque colocar-se em risco diante da sensação de insegurança é a melhor forma de confrontá-la abruptamente. É de fato revitalizar o Centro e se deparar com as suas memórias, que são preenchidas pela massa de curiosos peregrinos. O espetáculo caminha do Passeio Público, passando pela Praça da Estação, até chegar ao cemitério São João Batista. A “peça para acampamentos” reconstrói o clássico Our Town, do norte-americano Thornton Wilder. É aí que personagens como Vicente Pinzón (Adrian de La Vega), Bárbara de Alencar (Sarah Borges), Cuquita Carballo (Bruno Lobo), Bode Ioiô (Evan Teixeira), Líder Feminista (Yasmin Elica) se misturam em um delírio anacrônico com outras figuras como Ednardo (George Alexandre), Ricardo Guilherme (em projeção audiovisual) ou até mesmo Cid Gomes (Evan). Assim, a obra vai oscilando entre as asperezas e delicadezas da história de uma cidade feminina e, ao mesmo, tempo militar.

O espetáculo abortou no último sábado, 6, sua breve temporada devido à insegurança e também pela falta de verba. Uma pena, porque Fortaleza ainda precisa – e muito - dele. O mais novo trabalho do Coletivo Soul é composto por atores jovens. Alguns deles bem recentes no teatro – fato interessante de se por também em discussão.

Afora o apego geracional, principalmente por vermos poucos atores mais velhos na cena cearense, o que o espetáculo não me evidenciou foi a “força de ser em cena” para além da idade. Reivindico aos atores a maturidade que a obra exige ao propor uma intensidade de entrega tamanha que, quando acontece em planos de superfície, deixa vazios, dos grandes.

Mas Nossa Cidade não é só para ver e sim para viver. Nós também somos o espetáculo, talvez esse vazio também esteja em nós. (Danilo Castro – especial para O POVO).

Fonte: Vida & Arte - Jornal O POVO (09/10/2012).

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