sábado, 27 de outubro de 2012

Rupturas lúdicas do cotidiano


O espetáculo Dom Quixote, do grupo goiano Teatro que Roda, atordoou o centro de Maracanaú. A obra é encenada no meio da rua, reconstruindo a paisagem urbana


































Danilo Castro - ESPECIAL PARA O POVO

Do nada, o espetáculo começou. Não houve anúncio ou uma preparação para o acontecimento que se seguiu. Noivas imponentes e sombrias passaram a circundar a Avenida Central em Maracanaú, atordoando a vista normatizada pelo cotidiano daquela população que voltava para casa após o dia de trabalho. Uns soltavam piadas, outros achavam que as mulheres de branco estavam pagando promessa, alguns perguntavam, abismados, se aquilo era teatro ou era realidade.  

A rua é o espetáculo de si mesma e o grupo Teatro Que Roda, de Goiânia, conseguiu invadir o não tão pacato município vizinho da Capital com sua versão ousada de Dom Quixote. O espetáculo, dirigido por André Carreira, se apresentou como parte da programação do 1º Festival Nacional de Teatro de Rua do Ceará (FNTR-CE), que aconteceu até ontem também em Pacatuba e Maranguape, Região Metropolitana de Fortaleza (RMF).

A obra de Miguel de Cervantes ganhou uma roupagem estranhamente instigante, provocando uma bela desordem no trânsito, no comércio e nos transeuntes, que pararam para assistir ao espetáculo. Quem estava ali por volta de 17h30min certamente foi para casa um pouco mais tarde, ainda impactado com a recriação da paisagem urbana proposta pelo espetáculo. Uma senhora chamou as noivas de anjos, a outra retrucou afirmando que eram fantasmas. Após o choque inicial, a criatividade de uma população que pouco tem acesso ao teatro passou a ser aguçada com as interpretações que brotavam da boca do povo.

A cidade como palco oferece seus riscos, o perigo é latente, mas é isso que propulsiona a cena de rua, que deve saber se embebedar pelos fluxos de uma urbe cheia das suas peculiaridades. A trama libertária do protagonista aventureiro parece não ter lugar melhor para acontecer. Vê-lo arriscar-se entre os carros, brigar com seu fiel escudeiro Sancho Pança – um mendigo – ou com policiais, desafiar um dragão em forma de uma retroescavadeira imensa, ver as noivas no alto de um prédio em construção ou na garupa de moto-taxistas, é, no mínimo, de encher os olhos. E é esse choque, entre o que é real e o que não é, o mais interessante.

Desafio

O grupo se entrega à rua como quem pula do abismo. Estar na rua é um caminho sem volta, tudo pode acontecer, pois a cidade não ensaia. Numa cena em que Dom Quixote é espancado por policiais, um objeto do cenário atingiu um transeunte, o material quase encostou em um carro que passava. Sim, há riscos, mas, resguardar o público como uma mãe que cuida das crias é fundamental. O grupo carrega consigo o desafio de construir um “caos planejado”. O trabalho é tão inventivo e lúdico nas suas composições, que a mensagem de liberdade proposta na dramaturgia acaba ficando em segundo plano. Ainda assim, a obra certamente vai reverberar por bastante tempo entre os populares que viveram àquela experiência na RMF.

Fonte: Crítica publicada no Caderno Vida & Arte do Jornal O POVO (27/10/2012).

Assista o depoimento de Dionísio Bombinha, do Teatro que Roda, logo após a apresentação no Maracanaú:




2 comentários:

André Carreira disse...

Danilo

Muito interessante o teu texto. Agradeço o olhor atento e a generosidade da publicação. Com certeza um estímulo para o trabalho dessa companhia que rema contra as didifculdade de fazer teatro em Goiás. Um grande abraço.

Licko Turle disse...

Bom texto, ótima reflexão. O Quixote "invadiu" Maracanaú.
Abs,