sábado, 20 de outubro de 2012

Verónica não pode morrer sozinha

Verónica Decide Morrer no Festival UFC de Cultura
Jomar, 

Fiquei com vontade de te escrever após ver Verónica Decide Morrer no encerramento Festival UFC de Cultura. Então, antes de qualquer coisa, não tenha esse texto como uma crítica sisuda, mas como uma carta de um amigo que admira outro. Tem um termo, muito utilizado por João do Rio - um cronista carioca que produziu bastante entre as décadas de 1910 e 1920 - que se chama “flanar”. É o equivalente a vagabundar, vadiar, andar leve. Ele escrevia suas crônicas com esse princípio de olhar descontaminado e disponível ao mundo. Tenho tentado fazer isso ao escrever minhas críticas. Escrever com o olhar de um vagabundo, que não tem pretensões, que apenas está disposto a experienciar um momento e não observá-lo de fora. É lindo te ver cantando, ver como sua dor é dor que dói na alma e não uma dor criada para uma persona, ver seu ardente protesto de quem é obrigado a “levar porrada na cara pra exigir respeito”, como aconteceu recentemente com a agressão que você viveu no Ceará Music. É doloroso também pra nós, que nos imaginamos nessa situação deprimente de quem apanha por ser livre. Quando vejo Verónica Valenttino, vejo você e vice-versa. A formação em Artes Cênicas, sem dúvida, te faz ficar bem a frente da banda. Então, em vez de ver um grupo, vi apenas você, uma pena. É que a gente, como público, quer ver performers. Fiquei eu me perguntando porque o show não tem mais cenas, não sai do convencional de um repertório que se segue num setlist. Sabe o beijo que você dá nos seus homens? Seria lindo se fosse um beijo pensado para a cena. E isso não significa “fazer cena”, significa elaborar os milímetros da potente apresentação que vocês têm na mão. Sabe, é que você é tão energético, os instrumentos tocam tão altos, que a gente mal decifra sua voz. Não sou nem um pouco entendedor de música, mas música a gente faz para qualquer um, não é? Por vezes, os mais leigos são os que mais contribuem, você sabe. Então, entenda isso como uma ajuda, se quiser. Suas letras, definitivamente, são daquelas que precisam ser ouvidas. Queria eu ter te ouvido mais. Queria eu ter visto menos buracos entre uma canção e outra. Queria eu ter vivido uma costura mais densa, um show por inteiro, sem interrupções. Te digo mais uma vez: você é a banda, mas mais lindo seria se a banda fosse todos vocês, se todos vocês morressem juntos a cada apresentação. Nenhum sucesso ou fracasso são pra sempre, como ouvi um ator falar hoje numa entrevista na TV. Por isso, cautela com os caminhos que estão pisando e que vocês emerjam por dentro, na mesma proporção em que o buzz do grupo vem crescendo.

Um forte abraço,

Danilo.
20/10/2012

3 comentários:

Verónica Valenttino disse...

Querido, que ótimo texto, crítica, ou carta...rsrs
Também tenho consciência de tudo isso, do som sempre alto (briga constantes com os músicos, é um mal da raça, rsrs), das palavras ditas, da experimentração de cenas e tudo... Ainda nos pegamos atados ou com dificuldades devido à luta constante que travamos desde ensaios pagos, cachês atrasados, logo, pequenas dessas dificuldades ainda nos impedem de sentarmos, criarmos, dirigirmos e enfim morrermos juntos, e isso não é uma justificativa, falo por desabafo frente às dificuldades inúmeras e que se revelam num resultado... Sou das piores, a mais crítica comigo mesma e com o grupo, com os buracos que não perdoo, e tantas outras exigências que somos levados a cobrar, e de nós mesmos... Feliz estou pela grande conquista quanto artista nessa cidade, sei da potência entende, sei que posso tornar ainda mais gigante, explendoroso, diria até escandaloso, no sentido de não só dar o recado, mas o de chocar da melhor forma, tocar da melhor forma e até ferir, cutucar, enfim... Ah Danilo, os sonhos são tão altos, a visão tem alcançado objetivos ainda mais difíceis, mas estamos a cada dia aprendendo muito, batalhando muito, ralando e suando pacas... mas palavras assim, nos motiva a acreditar ainda mais e a buscar a perfeição, se é que é possível, como sou louca, acredito sim... Feliz ´por tudo, inclusive com o teu carinho e tempo dedicado tanto em nos ver como em escrever-me com tuas considerações...
Grata, e contente por tudo.
Ah... e ainda será grandiosíssimo. Creio e foi pra isso que vim.

Verónica Valenttino.

Thiago Cavalcante disse...

Exatasiado com a carta-crítica e com a resposta de Verónica.

Sucesso aos dois: Danilo e Verónica (banda).

Danilo Castro disse...

Quando estiver por aqui, vamos conferir o show deles.