quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Contrastes de uma metrópole que nos habita

Tecendo reflexões sobre a morte do teatro, o espetáculo Metrópole, novo trabalho da Inquieta Cia. de Teatros, mergulha na história de dois atores irmãos que vivem no estranho sossego de uma cidade caótica

















Danilo Castro - ESPECIAL PARA O POVO

Existe em Fortaleza um sentimento estranho de uma cidade pacata e, ao mesmo tempo, que cresce assustadoramente. São duas forças opostas que coexistem. Por mais que procuremos a normatização, é como se não tivéssemos rédeas para controlar os fluxos e contrafluxos que habitam na nossa metrópole e, consequentemente, em nós. Esse parece ter sido um dos motes do jovem dramaturgo Rafael Barbosa no espetáculo Metrópole. A trama complexa propõe reflexões sobre a morte do teatro, sobre as perdas, oscilando entre calmarias e excentricidades.

Fruto do trabalho da Inquieta Cia. de Teatros – antigo grupo 3 x 4 de Teatro, essa é a primeira direção do ator Gyl Giffony. A obra conta a vida de Charles e Caetano, dois irmãos atores ou dois atores irmãos, não importa. Nas idas e vindas de um relacionamento fraternal conturbado, mergulhamos a fundo no íntimo dos personagens e, de carona, caímos dentro de nós mesmos. Tanto que o público é o tempo inteiro refletido no espelho. Nós também nos assistimos. Ali, naquela encenação dialogada com o espaço da sala de dança Hugo Bianchi, no anexo do Theatro José de Alencar, somos vultos dessa cidade doida.

Dividir a cena com Silvero Pereira (Caetano) não é fácil. E ver Thiago Andrade (Charles) em duelo perigoso ao seu lado é instigante. É uma briga de dois amigos galhofeiros. O veterano estende a mão e leva seu pupilo para que ambos enfrentem o “monstro teatro” juntos. Se, de um lado, é possível enxergar as nuances de um irmão mais velho frustrado por ter abandonado o teatro para viver uma vida pacata. De outro, vemos um jovem sonhador, malandro, vívido, mas ainda sem as variações que talvez o personagem proposto por Rafael Barbosa peça.

Sujeira

Gyl nos lança uma encenação nua, despojada, que se suja desesperadamente de farinha, papel, tinta e vinho à medida que a trama caótica avança. O lixo cênico é um despudor belíssimo de ver. Quanto mais a sujeira se mostrar evidente, mais ela encherá nossos olhos regrados, plasticamente condicionados à beleza da composição elaboradíssima, creio. E não dá para negar, há na sua direção influências claras de um teatro latino, potente, organizadamente desorganizado ou vice-versa. 

Por causa dos balanços entre delicadezas e brutalidades dramatúrgicas e cênicas, o espetáculo talvez oscile entre seus momentos de força estridente e de vácuo profundo. Sim, variar as curvas que regem uma encenação é importante, mas pode ser que exista um desafio a ser enfrentado destemido pelos inquietos desta companhia. Como tornar essa linha melódica atraente até mesmo nos momentos mais distantes da ludicidade, nos momentos de depressão?

O texto de Rafael Barbosa se mostra tão bem construído que também deve ser lindo desfrutá-lo apenas como literatura. As palavras que ele entrega para os atores jogarem ao vento são repletas de imagens, de poesias. E são muitas. Tantas que, aos meus olhos, pareciam até que elas se sobrepunham aos próprios intérpretes e ganhavam vida sozinhas, no ar. E realmente não sei até que ponto isso propulsiona ou ofusca a própria cena.

Multimídia

No blog do espetáculo é possível ver várias fotos, vídeos e textos que serviram de subsídios para a pesquisa do grupo: www.espetaculometropole.wordpress.com


SERVIÇO 

Metrópole
O quê: espetáculo de Gyl Giffony, com Thiago Andrade e Silvero Pereira no elenco.
Quando: Dias 22, 23 e 24 de novembro, sempre às 20h
Onde: Sala de Dança Hugo Bianchi (anexo do TJA - Rua Liberato Barroso, 525 – Praça José de Alencar).
Quanto: R$ 20 (inteira) / R$ 10 (meia)
(Espetáculo com limitação de público para 30 pessoas)
Outras informações: 87272593


6 comentários:

Gyl Giffony disse...

Danilo, um afago seu texto. Obrigado. Suas inquietações diante de nossa "Metrópole" são as nossas. Há coisas no seu texto que me fizeram rememorar vários pontos que me habitam no espetáculo. Seu olhar reforça a potência que mobiliza nesse trabalho, bem como me faz vê-lo e revê-lo como um bom jogo, um constante desafio.

Walmick Campos disse...

compartilho bastante com o q vc pensa...
umas coisas a mais alí, outras menos aqui...

mas no geral, acho q em nós chegou similar =)

e sobre a qualidade do texto... eu vou parar de ficar elogiando, pq começo a ser redundante e vai parecer mentira ;)

huahuahauhau

Silvero Pereira disse...

Sincero, consciente, certeiro e colaborativo. Obg, meu grande !

th. disse...

Lúcido e preciso, como sempre. E acho que uso sempre essas mesmas palavras quando vou comentar alguma resenha tua.

Mas aí não é culpa minha, é mérito teu.

Juscelino disse...

Esperei para ler o texto somente depois de assistir ao espetáculo. E que espetáculo! Perdi a conta de quantas vezes me arrepiei, entre o apagar e acender das luzes. Assim como também perdi a conta dos questionamentos que a peça traz, entre as voltas dos atores ao redor do palco. Palco, este, que inclui os espectadores, refletidos e assistidos, o tempo inteiro. Fantástico. :)

Danilo Castro disse...

Maravilha,Juss. Apareça mais no teatro, e depois passa por aqui. =]