sábado, 17 de novembro de 2012

Voz e Corpo


O mercado de espetáculos musicais em Fortaleza está em ascensão. Conheça personagens deste seguimento, onde a paixão sobrepõe as dificuldades

Espetáculo O Despertar da Primavera, versão do grupo Múltiplos - NEPT

Elisa Parente
elisa@opovocombr

A combinação das técnicas de teatro, dança e música vem conquistando cada vez mais o espectador cearense. Elas formam a base estrutural do musical, gênero que há mais de dez anos incluiu o Brasil na rota do circuito Broadway, um dos mais apreciados pelo público. Por aqui, o mercado de produção e circulação de musicais é ainda pequeno, mas relevante. Grupos mantêm a produção ativa como podem, contando com o empenho incondicional dos artistas e o crescente interesse do público.

A atriz Manoela Elias transformou seu gosto pelos espetáculos musicados em profissão. Aluna da graduação em Belas Artes, da Universidade de Fortaleza (Unifor), ela decidiu apresentar o trabalho de conclusão de curso em forma de espetáculo. Assim, surgiu a adaptação de O Despertar da Primavera (Spring Awakening, 2006), peça homônima de Frank Wedekind, remontada pela primeira vez no Brasil por Charles Möeller e Claudio Botelho. A produção, que lotou a plateia do Teatro Celina Queiroz, reestreia hoje e segue pelos finais de semana de novembro, no Sesc Emiliano Queiroz.

Para desviar de um trabalho que impressionasse unicamente pelo virtuosismo, Manoela optou por uma peça de enredo mais profundo, com cenário minimalista, poucas trocas de roupa e maquiagem simples. O elenco, formado por amigos que tinham alguma identificação com o projeto, foi trabalhado de modo que os níveis de atuação estivessem minimamente equiparados. O resultado foi a criação do Múltiplos - Núcleo de Estudos e Pesquisa em Teatro.

O espetáculo agradou. No último domingo, a plateia do teatro da Unifor estava preenchida e muitos dos espectadores acompanhavam as letras das canções. “Alguns dos atores deram até autógrafo no final. Foi muito especial”, orgulha-se a diretora, que faz às vezes de maquiadora e assistente de direção do grupo Ás de Teatro. O coletivo possui extenso currículo que inclui sucessos como Companhia (adaptação do sucesso The Company), Você Não Consegue Parar (versão de Hairspray) e Audições Abertas (inspirado em A Chorus Line). O Grupo Ás de Teatro surgiu em 2004, por alunos dispostos a trabalhar atuação, canto e dança. O desafio, ele reconhece, passa por diversas instâncias.

Apoio e estrutura

“A principal dificuldade é a falta de estrutura de um teatro que receba essas produções. Segundo é a falta de apoio, seja ele público ou privado. Por fim, a dificuldade de convencer o espectador a pagar um preço justo pelo ingresso. Se eu baixo o preço, não pago a produção do espetáculo”, calcula Glauver, que manteve em cartaz por três anos o musical Você Não Consegue Parar, levando mais de três mil pessoas ao teatro. O próximo, que já está em fase de produção, será Prometemos não Chorar – Um musical brega, o primeiro espetáculo musical com os direitos autorais garantidos.

A formação é ainda um grande empecilho para a profissionalização de artistas interessados em trabalhar com musicais. O interesse é também primordial. “O grande problema é que as pessoas se deslumbram. Acham que são atores completos, mas as pessoas não se preparam. Faltam também cursos para a área. Você tem aulas de dança, de canto e de atuação separadas, mas a aula de balé para um espetáculo de dança não é a mesma coisa que dança pra musical”, explica André Lima Gress, fundador do grupo .COM de Teatro

Durante um intercâmbio realizado em Nova York, André participou de workshops e chegou a atuar em quatro espetáculos. Em janeiro, o ator retorna aos Estados Unidos para uma temporada de estudos na New York Film Accademy (NYFA), para um curso de direção para musicais. “A escola é referência internacional, pois já formou atores que trabalham em séries como Glee”, identifica André.

Adaptar ou Criar

Partir de um trabalho já criado e buscar encontrar o próprio caminho, ou começar do zero, investir no lado criativo? Para Manoela Elias, a responsabilidade de adaptação é imensa. “A remontagem é sempre um desafio maior, você lida com público pré-estabelecido, crítica condicionada, engenharia de produção já existente e o trabalho tem que ser muito grande, feito com muito cuidado”.

Por outro lado, André identifica a compra dos direitos de montagem como um dos principais empecilhos. “Muitos espetáculos não vendem seus direitos para o Brasil e, quando vendem, é um pacote caríssimo em que a montagem deve seguir o original à risca. A versão brasileira do Mamma Mia, por exemplo, custou R$ 13 milhões”, calcula Gress, que avalia suas montagens como acadêmicas, “onde tentamos capacitar as pessoas para que as produções possam existir”.

O problema, então, vira algo cíclico. “A gente não pode inscrever o espetáculo em edital porque não temos os direitos autorais. Para montar um musical, realizamos workshops onde os atores pagam mensalmente e podemos viabilizar o espetáculo”, responde o diretor de Enfeitiçada, musical que custou R$ 30 mil. Enquanto se prepara para viajar para Nova York, André Gress afirmou que está produzindo um espetáculo inédito em Fortaleza. “Ano que vem, teremos o primeiro musical realizado com direitos autorais, mas não posso dar mais detalhes”.

Ponto de vista
Danilo Castro - danilocastro@opovo.com.br

Em Fortaleza, às vezes me parece que existe uma segregação invisível entre os grupos que investem na linguagem musical e os grupos de teatro já legitimados ou oriundos da academia. De um lado, há pouco interesse na cena local ou em se articular aos fóruns de discussão para lutar por políticas públicas culturais. De outro, há uma indiferença que taxa essa linha musical como mercadológica, alienada ou enlatada. O fato é que, em ambas as partes, há carências - das grandes. Claro, as proporções entre os grupos não são as mesmas, mas esses novos diretores de teatro que se apropriam da “estética Broadway” não podem ser subestimados. Grupos como o .COM, Ás de Teatro e Múltiplos investem dinheiro e força de vontade em algo que é pouco visto para as bandas de cá, mostrando mais uma faceta do teatro cearense. Assim, eles conseguem mobilizar outros públicos . E isso não significa falta de identidade. Nosso teatro é plural e deve ser valorizado nas suas especificidades. E se, em vez de nos fuzilarmos, nos uníssemos? Para isso, é fundamental que esses grupos de fato conheçam a cena local e se intercambie com ela. O empecilho que vejo é o dilema dos direitos autorais dessas grandes obras americanas. As versões cearenses acabam sendo “adaptações” forçadas por ausência de financiamento público ou privado. Com a impossibilidade de concorrer em editais e festivais, os espetáculos duram pouco tempo e se sustentam apenas com bilheteria, que normalmente é destinada aos altos custos de produção. Os nossos atores de musical muitas vezes pagam para fazer teatro. Se isso for considerado natural, o caminho da profissionalização estará ainda mais distante. É preciso se unir, se articular com grupos de outras estéticas, compartilhar métodos de criação. Quem sabe já tenhamos repertório para uma pequena mostra de musicais com oficinas e seminários? Fica a sugestão.

Serviço

O Despertar da Primavera
Quando: Hoje e amanhã, 18, e nos dias 24 e 25, às 20 horas
Onde: Sesc Emiliano Queiroz (Av. Duque de Caxias, 1701 – Centro)
Quanto: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia)
Classificação: 14 anos
Outras info: 3452 9090

Fonte Vida & Arte - Jornal O POVO (17/11/1012)
Matéria principal
Matéria coordenada
Ponto de vista

2 comentários:

JulioLira disse...

Gostei também de sua opinião, Danilo. Essa união entre os grupos musicais e os acadêmicos é o que mais nos sustentará.

Manoela Elias disse...

Parabéns pela matéria Danilo, adorei suas considerações.