sábado, 8 de dezembro de 2012

Um avatar transgressor

Memória viva das artes, amigo de Beckett, Ionesco e Picasso, Fernando Arrabal está em Fortaleza. Em entrevista ao O POVO, ele fala sobre sua trajetória e suas ideias

















Danilo Castro - ESPECIAL PARA O POVO

Os cabelos grisalhos e olhar cansado não ofuscam a energia jovial que pulsa forte nas suas expressões, nas suas palavras, no seu modo de ser. Tanto que, sobre a cabeça, dois pares de óculos chamam atenção. Entretanto, é na estampa da blusa negra que está a imagem mais curiosa: a cantora Lady Gaga aponta-lhe uma arma. Bem-humorado, o dramaturgo espanhol Fernando Arrabal, conhecido como último sobrevivente dos “avatares da modernidade”, visita Fortaleza pela primeira vez para conferência sobre sua vida e obra, antes disso, ele conversou com o Vida & Arte. 

A trajetória e o pensamento do homem que se utiliza do absurdo para protestar sua dor e aguçar o comodismo serão contadas logo mais, às 19h. Convidado pela Escola Livre Teatro da Boca Rica, o dramaturgo irreverente estará no Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno, da Universidade Federal do Ceará (UFC), em bate-papo mediado pelo escritor capixaba Wilson Coelho e por professores do Curso de Licenciatura em Teatro. Aos 80 anos, Arrabal é o primeiro homenageado do projeto Memória Viva da Cultura e das Artes.

Princípios

Ainda criança, o misterioso desaparecimento do pai, militante esquerdista condenado durante a Guerra Civil Espanhola, abalou profundamente o escritor. O fato até hoje reverbera no seu trabalho. “A morte do meu pai está presente comigo sempre. Desde os meus pesadelos às minhas obras”. Anos depois, Arrabal foi preso político do governo franquista, em 1972. Na época, enviou ao militar espanhol a famosa “Carta ao General Franco”. Escrita ainda na prisão, o autor fez duras e irônicas críticas ao presidente. “Você pinta naufrágios e seu jogo favorito é matar coelhos, pombos ou atum”, revela um dos trechos. 

Dono de uma vasta contribuição para o teatro, a literatura, o cinema e as artes plásticas, ele foi amigo íntimo de artistas como Dario Fo, Eugène Ionesco, Pablo Picasso, Salvador Dali e Samuel Beckett. Deste, o dramaturgo conserva cartas inéditas. Nessa época, Arrabal participou de movimentos que caminhavam em uma linha surrealista, absurda e anarquista. Conviver com outros grandes artistas, sem dúvidas, serviu-lhe naturalmente como fonte de inspiração em seus processos criativos, ainda que ele também evidencie as dessemelhanças. “Há uma relação mais que de amizade entre nós, mas somos todos muito diferentes. A única coincidência é que todos nós jogamos xadrez”, brinca.

O título de “sobrevivente dos avatares da modernidade” veio após Arrabal ingressar no grupo de André Bruton (1896-1966), teórico francês do surrealismo. Ao lado de Andy Warhol e de Tristan Tzara, ele é o único que continua em plena atividade, difundindo uma obra crítica, caótica, poética e brutal. Membro do Collège de ‘Pataphysique desde 1990, Arrabal estuda e trabalha com conceitos da Patafísica, que pode ser definida como a “ciência das soluções imaginárias”. Sem modéstias, ele explica. “Sou célebre hoje por causa da confusão das minhas obras. A redenção de Cristo só é possível porque é absurda. É paradoxal, mas não estou a favor e sim contra a confusão. Estou buscando rédeas”, conclui.

A obra cinematográfica é em número menor, diante das centenas de livros de poesias, quatorze novelas, direção e textos para teatro, além dos ensaios acadêmicos. “Fiz sete longas-metragens. Os filmes, de certa forma, também são sobre minha vida, creio. Após o último, descansei como Deus”, parodia. O primeiro filme Viva la muerte (1971) foi proibido na França por ser considerado violento - para o cineasta, é apenas uma história de amor - bem como todas as suas peças durante o período em que esteve detido. “Prefiro que queimem todas as minhas películas, do que cortem três cenas do meu filme”, revelou ele em entrevista ao programa do Jô Soares, quando os censores lhe sugeriram alterações no filme para que fosse liberado.

Brasilidade

A relação com o Brasil é íntima, apesar de ser sua estreia em solo cearense. O dramaturgo disse que já visitou várias vezes Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Arrabal pincelou ser admirador de algumas personalidades brasileiras. “É emocionante estar em Fortaleza em um hotel construído por Niemayer (Mareiro Hotel), já assinamos uma publicação juntos. Quando vou à Bahia, converso com artistas sobre a obra de Jorge Amado. Tem também Ruth Escobar, o Brasil precisa reverenciá-la mais, o mundo está pendente dela”. A atriz luso-brasileira encenou o texto Cemitério dos Automóveis, em 1968. No ano anterior, Marieta Severo havia protagonizado o espetáculo O Labirinto, também de autoria do espanhol.

Apesar de elogiar diversos artistas da contemporaneidade, Arrabal sugere o desafio que a cultura enfrenta nos dias de hoje devido à mercantilização da arte. “Os grandes artistas estão nas catacumbas”. A estampa da sua blusa talvez seja um anúncio ao massacre que o mercado da arte impõe aos verdadeiros artistas, muitas vezes invisíveis diante das celebridades. “Hoje estamos invadidos pela economia. A cultura não interessa à economia. A bolsa de valores é um templo religioso”. E, para os que pensam que seu histrionismo é gratuito, ele rebate. “Não sou provocador. A provocação existe e é incontestável. Mas a provocação é cretina porque se confunde com a transgressão. Eu sou transgressor e a transgressão é sempre festiva”, finaliza.

Serviço

Bate-Papo com Fernando Arrabal
Quando: Hoje, às 19h.
Onde: Teatro Universitário (Av. da Universidade, 2210 – Benfica)
Programação gratuita

Bastidores] Tem horas que não dá pra não ser tiete. O jornalismo às vezes nos coloca de frente para grandes personalidades. Arrabal é dos grandes para o teatro no mundo. Então, quando acabou a entrevista, meio envergonhado, deixei de ser repórter e pedi uma foto.



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