sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Do teatro que temos ao teatro que queremos

Da cena argentina à cena cearense: olhar o teatro independente e os espaços alternativos de lá como um propulsor de grupos e sedes para o lado de cá


Espetáculo Amar, direção de Alejandro Catalán
Por Danilo Castro

Olhar para uma metrópole que efervesce culturalmente é colocar-me numa realidade distante e, ao mesmo tempo, ter plena ciência dos caminhos que ainda temos a percorrer. Buenos Aires é apaixonante, seu teatro é tão potente que transborda do próprio território. Comparar será sempre difícil, mas, em vez de apenas enaltecer o que nossos hermanos têm de melhor, prefiro pensar numa relação propositiva, trazendo seus exemplos como mote para trilharmos no teatro cearense.

Há cerca 200 teatros independentes na capital porteña, conforme publicou Magela Lima nesta mesma coluna em outubro do ano passado. Esses artistas compõem ampla maioria dos que fazem teatro na Argentina, afora o teatro oficial - como a montagem Macbeth, de Shakespeare, dirigida por Javier Daulte em grupo financiado perenemente pelo governo – e o teatro comercial, como Stravaganza, de Flávio Mendonza, em cartaz no Teatro Broadway. Na Av. Corrientes, por exemplo, não são poucos os espaços culturais com espetáculos de todos os estilos. Ainda assim, muitos bairros possuem suas salas de espetáculos fora do polo central. O Centro Latinoamericano de Criação e Investigação Teatral (Celcit) é um bom exemplo, onde diariamente são apresentados espetáculos de grupos e artistas independentes, além de oficinas e palestras.

Espetáculo Play, de Nelson Valente e Silvina Aspiazu
Essencialmente, o que me admira no movimento teatral argentino são as fugas das rotas que ainda são nossas poucas opções. Enquanto carecemos de pautas em prédios oficiais, os grupos por lá se reinventam para criar e manter seus espaços, abrindo as portas para outros coletivos. O público marca presença nos teatrinhos, galpões, porões e outros espaços alternativos. Financiar-se por bilheteria passa a ser uma realidade possível. Resultado: as pautas caríssimas dos grandes teatros ou a necessidade vital de editais de manutenção desses espaços deixam de ser as únicas saídas.

Perspectivas

Para o teatro de grupo brasileiro, ainda é necessário o desenvolvimento de mais políticas públicas, mas precisamos também fortificar as relações com as comunidades que nos rodeiam, para que nossa arte seja um patrimônio zelado pelo nosso público e não somente pelo governo. No teatrinho de bolso El Extranjero, por exemplo, pude conferir o espetáculo Boom, uma adaptação de Hernán Morán ao espetáculo homônimo da Off Broadway – nos enlaces de um casal, a encenação vai se despedaçando até se transformar em um caos de papelão picado. Ou mesmo o Amar, de Alejandro Catalán, iluminado apenas por lanternas e apresentado no charmoso El Camarín de Las Musas. Ambos possuíam também um café (com livros à venda) que recebia público não apenas para o espetáculo. Mais um mecanismo gerador de renda para financiar os grupos responsáveis. 

Espetáculo Boom, com direção de Hernán Morán
Interessante perceber que, além do eixo mercadológico, há um senso artístico bastante politizado, crítico, combativo ou que misturam vida e ficção nos “biodramas” em trabalhos de grupos como Timbre 4, Sportivo Teatral ou nas encenações de Emílio Garcia Whebi, Federico Leon e Ciro Zorzoli. São estéticas ousadas, bem características no jeito argentino de encenar. Mas há também trabalhos delicadíssimos e rígidos ao mesmo tempo, como o espetáculo Play, de Nelson Valente e Silvina Aspiazu - com três atores atuando estáticos - apresentado no Festival Beckett Buenos Aires.

Por aqui, nosso jeito de fazer teatro pode caminhar mais firme. Sedes como a Aldeia Expressões (Expressões Humanas), a Casa da Esquina (Bagaceira e Máquina) ou a Andar de Dois (Vitrine e Em Foco) podem se intercambiar e se tornarem espaços culturais efervescentes. Bons exemplos temos na Casa da Ribeira, do grupo potiguar Clowns de Shakespeare, no Estúdio do Latão, dos paulistas Cia. do Latão ou, quem sabe, na famosa Cartoucherrrie, do Théâtre du Soleil, onde a ocupação do espaço pelo grupo francês desde 1970 virou patrimônio da comunidade.

Claro, cultura é um direito do povo, sendo também dever governamental financiar esses coletivos que agem numa outra linha, que não a de mercado. Editais de montagem e circulação não são suficientes, é preciso investir em manutenção, até porque a intensidade e o ritmo de produção de um grupo, quando este possui o seu local fixo de trabalho, aumenta bastante, gerando mais retorno para a cena cultural e para a população. Mas é preciso também que os coletivos independentes pensem além das obrigações estatais. Os bairros onde as sedes estão situadas precisam saber que o teatro local existe a todo vapor, além disso esses espaços devem se tornar, ainda mais, locais de fruição artística e formativa, não apenas locais de gestão e ensaio. Adiante, quem sabe, poderemos vivenciar um novo circuito na cidade, como na cena dos nossos hermanos.

PRA NÃO PERDER

Dose dupla

Márcio e Aspásia no Theatro
Os espetáculos de dança Ma Vie e Desespero para a Felicidade, de Aspásia Mariana e Márcio Medeiros, respectivamente, voltam aos palcos este mês. Quando: dias 23 e 24 de janeiro, às 20horas. Onde: Theatro José de Alencar (Rua Liberato Barroso, 525 - Centro). Quanto: R$ 10 e R$5. Outras informações: 3101-2583


Um comentário:

Felipe Sales disse...

Muito boa sua visão e a relação com o teatro argentino. Interessante o que podemos aprender com o teatro de lá, em como se fortalece e encontra veredas que possibilitam uma atividade dinâmica e plural. Criemos também as veredas para o teatro de cá! Merda!