segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Violência também é amor

















O que esperar de um diálogo entre uma puta velha e uma bichinha sonhadora? Esse, sem dúvidas, é um mote naturalmente excêntrico. O argumento de Rafael Martins já nos convida à encenação antes mesmo de nos depararmos com a figura decadente de Mara (Marta Aurélia) e a pitoresca de Gina (Démick Lopes). As amigas de bordel se perdem nos seus dilemas pessoais e abrem despudoradas as portas do seu camarim para que possamos esmiuçar suas vidas. 

Mão na Face, novo espetáculo do Grupo Bagaceira de Teatro, é um emaranhado geracional e, como de costume na dramaturgia do autor, uma evocação niilista e existencial. Mara e Gina foram feitas uma para a outra, como marido e mulher, mulher e mulher ou marido e marido, talvez. Elas, estranhamente, são ambivalentes e se completam nas suas carências. 

O retorno de Marta ao teatro, após uma década de hiato, não é um retorno aos palcos. Sua trajetória como cantora, sem dúvidas, deixa marcas evidentes na consistência de sua cena, mas, pedoa-me por te trair: a dama da vez é Démick Lopes. A composição da personagem Gina é tão delicada, elaborada, que mal nos questionamos se ela realmente existe, o ator se apaga e ela simplesmente é, sem justificativas.

Na trama, uma, desgastada e já esvaziada da plenitude de outrora, é a solidez da outra. Gina é uma menina deslumbrada com uma vida toda que ainda está por vir e é justamente esse vislumbre, a injeção hilariante que perfura a veia de Mara. Mas, a dramaturgia de Rafael é tão depressiva que, se a encenação caminhar paralelamente, pode haver uma queda energética, um desconforto não estratégico gerado ao público diante da cena.

Eu me pergunto se seria óbvio demais esperar picos estridentes de atritos entre as duas figuras tão vulneráveis, suburbanas. Todos nós temos os nossos dilemas e complexidades. Não reivindico aqui que seus conflitos sejam minimizados às suas condições atávicas. Na verdade, imagino que deva haver também lapsos de uma força opositora na encenação dirigida por Yuri Yamamoto, que contraste com a dramaturgia lenta, len-ta, l-e-n-t-a de Rafael. 

Sim, elas são amigas e compartilham-se em alma. Sim, elas também entram em choque, mas que parecem ser quase inexpressivos diante de suas intimidades e divagações, diante da fruição contemplativa que as alimentam mutuamente. Elas são o divã para alívio uma da outra. Seria bonito de vê-las amando-se mais intensamente, com tapas tão fortes quanto beijos.

Danilo Castro
07/07/2013

Serviço

O espetáculo está em cartaz sábados e domingos de janeiro, às 20h, no Teatro Sesc Senac Iracema. Os ingressos custam R$12 e R$ 6. Mais Informações: 3252 2215.

2 comentários:

Thiago Cavalcante disse...

Conheci Rafael Martins no CCBB aqui de São Paulo, acho que em 2009. Não me recordo - ao certo - o ano nem mesmo o nome do espetáculo. Tenho o livro que ele estava a autografar naquele dia, livro com sua peça. Lembro-me apenas que o texto era bem "forte" no sentido de que o vocabulário destoava do que me é comum, ou seja, havia muitas palavras de baixo calão. E isso não é um ponto negativo. Numa crônica Clarice escrevera: “querendo ou não os palavrões fazem parte da língua portuguesa”. Cito de cor, há dissonância, mas a essência é a mesma.

Danilo Castro disse...

Thiago, obrigado por voltar por aqui. Quando vc estiver em Fortaleza, pode ser que eles ainda estejam em cartaz, coloque na sua programação! =]