terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A revolta dos infantes


Como militantes ambientalistas, o espetáculo Dom Poder e a Revolta da Natureza, do Expressões Humanas, convoca crianças à manifestação

















Danilo Castro
ESPECIAL PARA O POVO

A criança, com seu espírito brincante, quando vai a um espetáculo de teatro, quer participar dele, interagir – nada mais natural. Há mil formas de propor essa interação, com músicas, coreografias e questionamentos. Mas, como estar disponível para construir a cena, a cada nova apresentação? Como não reproduzir uma simples imposição didática de ideias? No espetáculo Dom Poder e a Revolta da Natureza, do grupo Expressões Humanas, uma manifestação é instigada nos meninotes e cada um deles, literalmente, pode dizer o que pensa.

“O teatro, mesmo quando é didático, não deixa de ser teatro; e, desde que seja bom, diverte.” A frase de Bertolt Brecht, de alguma forma, rebate às aversões a esse aspecto didático comum em obras voltadas para o público infantil. O didático aliado à cena pode ser estratégia fundamental para a construção de adultos conscientes, críticos. E não há nada de ilegítimo ou supérfluo em “teatrar para educar”. A dramaturgia de Herê Aquino conta a história da natureza que está cansada dos males provocados pelo Dom Poder (Felipe Franco). Para sanar as mazelas produzidas pelo homem, os atores se aliam às crianças, armando uma conspiração.

Antes disso, há um prólogo com apresentação dos personagens. Imagino que seja preciso menos explicações bê-á-bá. É como se, aos meus olhos, fosse preciso buscar um didático não-didatizante, um didático mais fluido, que contextualize sem precisar sistematizar tanto. Aqui também me atenho às perguntas com respostas previsíveis, comumente exploradas por coletivos que trabalham com a linguagem infantil, que podem levar o espetáculo a cair no pieguismo. É preciso trabalhar para não infantilizar a criança.

Tudo é realmente uma grande convocatória, como um movimento social – com direito a mãos dadas e palavras de ordem. As crianças têm livre arbítrio para subirem ao palco e dizerem o que pensam. “O Dom Poder mata os peixinhos!”, gritou uma delas. “Ele polui o ar!”, reivindicou outra. Até mesmo: “Eu sou a mulher-gato!”, provocou uma garota, no auge dos seus 4 ou 5 anos, ciente de que seria capaz de derrotá-lo. As crianças roubam o foco, tornam-se o próprio espetáculo. Elas fazem do espaço um lugar de experimentação, e é lindo poder ver o risco dessa construção em cena.

Esse é o aspecto mais valioso da obra e deve ser mantido, mas, como não perder as rédeas diante de tantas crianças querendo dizer o que pensam? O desafio está lançado. Inquietas, no palco, elas falam todas de uma vez só. Muito do trabalho se perde, para nós, adultos, que ficamos na plateia, e para as outras crianças que optaram não subir no palco. Talvez, alguns procedimentos adotados por reuniões em movimentos sociais possam também ser utilizados como estratégia. A inscrição de fala pode ser uma boa opção ou mesmo um púlpito com microfone para elas exporem suas reivindicações de maneira audível possa melhorar o andamento do trabalho. Diante de uma Cidade que cresce desenfreada, com empreendimentos que muitas vezes passam por cima da lei, a pertinência do debate é uma ótima opção para as crianças.

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O texto foi montado pela primeira vez em 1992. A remontagem do espetáculo aconteceu em 2011, ganhando nova concepção estética e novos atores (Juliana Veras, Marina Brito, Péricles Davy, Amália Rodrigues e Bio Falcão).

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2 comentários:

Marina Brito disse...

Agora, eu fico inquieta com o termo tão usado, de vez em quando, por nós adultos: "infantilizar a criança". A criança já é infantil, mas não boba. Talvez seja por que nos dias de hoje buscamos tão logo vestir de comportamento adulto àquele que ainda detém uma pureza tão invejada por nós que a perdemos. Infantil, pra nós, ganha um sentido de bobo, de inocente... Mas, o que encontramos em cena, no brincar com ilusão e realidade, com representação e didatismo, é que elas inteligentemente não separam isso, elas conseguem viver intensamente os dois momentos como se fossem um só. Sei, porque no palco ao dar as mãos pra elas pedimos auxilio às duas coisas: a organizar a cena sem cortar o espirito de liberdade de expressão, e enfrentar o Dom Poder como seu fosse "a mulher gato". E quando a gente se olha, atores e crianças, elas entendem que eu ludibrio um faz-de-conta, e de repente sem amarras sociais, elas entram em cena, me causando inveja de tanta verdade. A criança sabe quando falamos a linguagem delas, sem isso, elas nos esnobariam, e de fato, no espetáculo, elas se juntam a nós.
Não desejo um mundo mais adulto não, "eu fico com a pureza da resposta das crianças."

Danilo Castro disse...

Verdade, Marina Brito "elas conseguem viver intensamente os dois momentos como se fossem um só". Isso é bem profundo, inconscientemente, elas são bem mais inteligentes que nós. De fora, nós criamos mil problemas, de dentro, elas solucionam rapidinho esses dilemas. Bobos somos nós, rs. Quanto ao fato de "organizar a cena sem cortar o espirito de liberdade de expressão", acho que esse é maior desafio. É possível e vcs conseguem, mas, como público, achei disperso e perdi momentos. O termo "infantilizar" usei no sentido genérico, esse mesmo que vc disse, mas sem a cobrança de torná-las adultas. Me refiro a um cuidado que devemos ter, sabe, pra não cairmos no problema "ator-cortesão". Que possamos discutir. =] Beijo.