sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Gênios da Raça: Herê Aquino, além da linguagem

Na trajetória da diretora de teatro Herê Aquino, vida e obra se confundem. A ideologia que rege sua arte desemboca na busca por uma sociedade menos opressora
















Danilo Castro
danilocastro@opovo.com

É sob o olhar tranquilo, protegido pelos óculos redondos, e sob os cabelos longos com rajadas grisalhas, que se esconde uma mulher forte, daquelas que nunca tiveram medo de deixar a mansidão de lado para gritar quando preciso. A diretora de teatro Herelana Aquino, ou simplesmente Herê, é do tipo de mulher que naturalmente se tornou referência para tantas outras e para uma gama de artistas na Cidade. Isso porque sua trajetória - artística e de vida - luta indomitamente por melhorias sociais.

Cheia de uma ideologia que nunca deixou de pulsar forte, ela trabalha reivindicando um mundo melhor, sem excessos e sempre com muita lucidez. A diretora não se descobriu artista logo cedo, tanto que sua obra só começou a evidenciar-se no fim da década de 1980, quando fundou, ao lado de Helô Sales, o grupo Expressões Humanas. Mas, bem antes da sua estreia nos palcos cearenses com o espetáculo Anárquico Velho Mundo Novo - que escreveu e dirigiu -, ela já se envolvia por inteiro em diversas militâncias esquerdistas.

Com o tempo, foi ficando cada vez mais impossível, para ela, questionar o mundo sem ser por meio de sua criatividade. Foi então que a arte acabou desabrochando avassaladoramente na sua vida e até hoje é o mote que a propulsiona para que continue, incansável, em busca de uma sociedade menos opressora. “Eu não posso deixar de acreditar que nossos trabalhos podem mudar o mundo. Se eu não acreditar nisso, eu não faço mais arte”, afirma, convicta de seus valores dentro do grupo que capitania.

Princípios

Em pequena, a diretora viu seu pai ser preso pela ditadura. Perseguido por ser líder do Sindicato dos Bancários do Ceará, Valdir Aquino foi detido em 1964, em 1968 e novamente em 1972, tempos de intensa repressão militar. “Eu era menina quando a Polícia Federal entrou na minha casa a primeira vez e levou meu pai preso. Eu tinha uns seis anos, acho. Eles também levaram documentos e livros que eles achavam que eram de esquerda”, relembra.

Talvez, esses resquícios de ditadura sejam responsáveis pela bravura que a menina Herelana carregou consigo nos anos posteriores. O contexto nada pacato em que esteve inserida durante a infância fez com que atavicamente ela continuasse a trajetória do pai, tantos anos depois. Seus trabalhos propõem um mergulho ritualístico entre artistas e espectadores, evocando análises profundas do ser humano. No espetáculo Os Cactos (2007), a memória dos desaparecidos políticos é revivida, passado e presente se misturam num estado árido de esperanças. O trabalho foi apresentado na antiga sede de Polícia Federal, atual sede da Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor).

Quase quatro décadas depois da última prisão de Valdir, o pai de Herê retornou ao espaço onde foi torturado, mas dessa vez apenas como um espetador onipresente, olhando para o seu passado. “Na época, o Emanuel Nogueira (autor) queria também mostrar o lado humano do torturador, mas eu disse que não dava pra montar de forma neutra. Isso faz parte da minha vida, eu tenho meu olhar sobre isso”, defende. Herê, sem dúvidas, é a sua própria obra. Ela mesma confirma que sua história pessoal e seu trabalho coexistem numa zona fosca - impossível de dissociar.

Herê soma direção em 16 espetáculos durante 23 anos de trajetória no grupo, além de inúmeros prêmios locais, regionais e nacionais. Claro, nada disso ela conquistou sozinha, outros artistas que a têm como tutora são responsáveis por muitos de seus passos. Em 2008, um dos momentos mais expressivos de sua carreira foi quando foi convidada a participar da Mostra Sesc Palco Giratório com o espetáculo Encantrago – Ver De Rosa Um Ser Tão, onde ela assina a dramaturgia inspirada na obra de Guimarães Rosa. O espetáculo que se propõe a fazer um mergulho no mundo sertanejo passou por 25 cidades brasileiras em 32 apresentações. Em seguida, a conquista da sede de grupo titulada Aldeia Expressões, na Rua Barão de Aratanha, 605, no Centro, passou a ser sua segunda casa.

No auge dos seus 55 anos e sem vaidades, para ela, o que mais importa é a maneira como seu trabalho reverbera e os avanços conquistados para a classe teatral no Ceará. “Cultura é um direito, assim como educação, saúde...”, exemplifica. O maior objetivo do Expressões Humanas atualmente é conseguir manter sua Aldeia, tendo como princípio crítico a discussão sobre os dilemas do homem na atualidade. Por isso é fundamental a politização teatral. “Não é uma estética que faz o teatro ser contemporâneo. O teatro se revela a partir da forma, mas essa forma não vem esvaziada de conteúdo”, ensina.

Atualmente, Herê participa do Movimento Todo Teatro é Político, que luta por políticas públicas para o teatro. A atriz e diretora Vanéssia Gomes reconhece a contribuição da artista para o Estado. “Ela é importante não só na questão artística, mas pelas escolhas que faz. Ela é um ótimo exemplo de procedimento de grupo, seus passos nos dão muito norte. A visão de mundo dela está dentro dos espetáculos. Não são só escolhas técnicas, mas existe uma linha ética, que conduz a linha estética. Pra mim, é enriquecedor conviver com ela”, afirma. Herê faz teatro, mas não deixa de romper a linguagem para alcançar a vida.

Êh, Herê
Ricardo Guilherme, Ator

“Herê, que é mas que
não se quer Herelana.
Herê, velho erê,
retardatária Yoko Ono woodstokiana,
visionária Herê,
do país de São Saruê das expressões humanas.
Herê, herética
Electra edipiana,
hereditário
bem-querer de Nirvana,
nirvânico
bem-querer de Natércia,
macunaímica ialorixá de Helô, a Jiguê marioandradeana.
Laroiê, Herê doidivanas!
Na casa urbana, casadoira,
ou na casinha de sapê, de moira serrana,
utererê, Herê, doida Diana,
Ártemis de moto, em cilindradas rondas.
Eparrei, guerreira Herê, da vermelha onda,
estóica Herê dos heróicos comitês do PT,
do olerê,
olará de É só você querer.
E amanhã assim será?
Êh, Herê, o larilará,
Lula lá, saravá
o que será que será?
Será o caê de Obaluaê
ou o axé de Oxalá ?
Onde estará a Shangri-la,
a Pasárgada Palmares?
Nos quereres,
Herê, dos bares?
No campari, Herelana,
das cabanas-cabumbas
de sertões e mares?
Nos auês de RG,
Cícero e Rosana?
Nos fuzuês de Yuri,
Murilo, Lua e Sueli, a ajuizada insana?
Nas querenças da vida, breve farsa atelana,
ou nas querelas da arte, tragicomédia que
se alonga?
Êh, Herê,
minha Herelana riponga,
antiga cigana,
nômade gnomo,
por que a gente se irmana
e se dana
em porquês, em para quês, minha inquieta querente capricorniana?
Êh, Herê, Macabéa em odisséia de Oxumarê,
tímida Diadorim roseana, mama Romana guarnieriana,
mãe-ogã, iá-quererê de neoiaôs, nova vovó Nanã, Anemburoquê,
a morte e a vida são severinas irmãs beckettianas
e o teatro, Herê, o controverso Gogot
de nossa adversa espera cotidiana.
Hosana, Herê! Hosana, Herelana!”


Fonte: Vida & Arte - Jornal O POVO (15/02/2013)

6 comentários:

Anônimo disse...

Só um ajuste de informação. A irmã da Herelana é Nirvava Aquino, não Helô Sales. No mais, bonita matéria!

Danilo Castro disse...

Verdade. Como elas fundaram o grupo juntas e possuem nomes parecidos Herê/Helô, acabei cometendo esse equívoco, mas já corrigi aqui no blog. Obrigado pelo toque.

Canteiro Pessoal disse...

Danilo, estive a pouco no blog do Thiago, e fiquei emocionada com as palavras liberadas. E, sinceramente, preciso conhecer, tu e Thiago, LOGO!!!

Abração!!!

Priscila Cáliga

Danilo Castro disse...

Pri, é só a gente combinar, no início do mês que vem vou a SP de novo para rever Thiago. Fortaleza está aqui, linda, pronta pra te receber. =]

Italo Anderson Clarindo disse...

Olá Danilo Castro

Gostaria de parabenizá-lo pela bela reportagem sobre vida e obra de Herê Aquino. Apesar de ter cruzado algumas (agradáveis) vezes com essa grande pessoa e diretora, nunca tive a oportunidade de saber alguns fatos sobre sua história que estão nas páginas do jornal de ontem.

Saber um pouco mais sobre Herê é, além de importante para uma compreensão sobre o teatro cearense, inspirador. Isso me dá ainda mais vontade de acreditar no Teatro em nossa cidade, ainda mais vontade de fincar meus pés aqui. Mesmo com todas as dificuldades que um artista tem que enfrentar.

Um bom fim-de-semana.

Thiago Cavalcante disse...

Danilo,

Li recentemente o livro "Correspondências - de Clarice Lispector" e numa das missivas trocadas entre Clarice e Lúcio Cardoso, o Teatro é louvado e desejado. Louvado e desejado na ideologia de um "Teatro Total", isto é (tentarei explicar), um Teatro capaz de ir além dos cenários, iluminação, interpretações e direção. Que "respinga" vida-esperança-confronto-questionamentos...

Parabéns pela matéria, meu amigo. Meus cumprimentos, singelos, a Herè Aquino.

...
“Eu não posso deixar de acreditar que nossos trabalhos podem mudar o mundo. Se eu não acreditar nisso, eu não faço mais arte."

“Cultura é um direito, assim como educação, saúde...” Lembrei-me de um ensaio que li na Universidade, de Antonio Candido: O direito à Literatura.(Excelente).

PS.: Ao ler o comentário da Priscila e o seu,abri um sorriso que uniu Blumenau, São Paulo e Fortaleza.