sexta-feira, 15 de março de 2013

Língua que se faz dança

Acessibilidade nas artes cênicas pode ser bem mais que inclusão, mas um recurso estético que contribui para descobertas de uma nova potência de cena

Silvana Duarte em dança indiana Odissi: cada gesto significa um estado psicológico

Danilo Castro
ESPECIAL PARA O POVO

No Espaço Cultural dos Correios, está em temporada até hoje a “performance poética e teatral” Mário Quintana, o Poeta das Coisas Simples. Ontem, o teor da encenação foi diferenciado. Isso porque houve uma intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais) inserida em cena para traduzir o espetáculo. Segundo o idealizador Sérgio Miguel Braga, o intuito é estar a par dos “novos parâmetros da acessibilidade”. Fato louvável em um mundo onde a inclusão de pessoas com deficiência em diversos espaços tem sido cada vez mais necessária. Contudo, por que não pensar além?

Outro exemplo é o grupo Os inclusos e os Sisos, fundado pela comediante carioca Talita Werneck. Eles foram um dos primeiros no País a criarem espetáculos com tradução simultânea para Libras e com programas impressos em braile, a partir de 2007. Direito à cidadania plena é também poder ter acesso à fruição cultural nos seus mais diversos gêneros. Mas a acessibilidade gera um desafio aos coletivos artísticos que lançam suas produções a partir desse mote.

Talvez seja necessário cada vez mais pensarmos em não apenas traduzir para tornar acessível, mas mergulhar a fundo na composição de obras que se apropriem artisticamente das especificidades ligadas às deficiências. Assim, será possível despertar novas sensações no espectador - deficiente ou não.

As artes cênicas são naturalmente obras-ritual. Elas acontecem a partir da interação direta entre artista e público, diferente da literatura, do cinema ou mesmo da música, onde o produto artístico é eternizado e pode ser apreciado atemporalmente. Por isso mesmo, as sensorialidades se dissipam no efêmero momento de uma encenação. Como aproveitar esse contato direto para descobrir novas formas de interagir não somente através das maneiras tradicionais?

Nós, apreciadores, andamos condicionados aos moldes clássicos de encenação com suas dramaturgias de apresentação-desenvolvimento-clímax-resolução. E nós, artistas cênicos, também andamos condicionados a caminhar por vertentes confortáveis. Não desmereço o valor das obras clássicas, mas contestar o mundo a partir das próprias estruturas de encenação também se faz necessário. Inserir novas formas de relação com o espectador, utilizando as deficiências como mote, pode ser uma ótima saída para colocar-se diante do risco.

Mãos que dançam

A dança se evidencia bem mais desprendida que o teatro em relação à palavra, já que este tem o texto atrelado à sua gênese, apesar de a relação dança-teatro estar cada vez menos segmentada. O videodança Le Ptit Bal, um filme do coreógrafo francês Philippe Decouflé, se utiliza de uma série de códigos linguísticos gestuais - que se assemelham à libras - para construir uma coreografia. O mesmo acontece no vídeo The Man I love, dirigido pela coreógrafa alemã Pina Bausch. Ambos se apropriaram dos códigos para construir uma encenação. Apesar de serem obras de linguagem audiovisual, os recursos também podem ser ressignificados nas artes cênicas.

No teatro tradicional indiano, o Abhinaya, ou na dança Odissi, cada gesto significa um estado psicológico, uma emoção, das mais serenas às mais intensas e profundas, como nos trabalhos da dançarina Sujata Mohapatra. No Brasil, a atriz e pesquisadora Silvana Duarte encabeça um trabalho de difusão da dança-teatro indiana. Esses códigos são tidos quase como uma língua transmitida em composições visuais. Os movimentos gerados em corpos codificados não se tratam de traduções, pois os gestos são a base de toda a coreografia.

Gestos linguísticos em cena

1) The Man I love, de Pina Bausch.

2) Dança indiana Odissi, por Sujata Mohapatra.

3) Le Ptit Bal, de Philippe Decouflé
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2 comentários:

Kiko Bloc disse...

Muito bacana, tem ou tinha um núcleo da UECE que fazia tradução em braile de legendagem de filmes ou algo assim, mas esse foco que você sugere é de quem tem mais ciência e consciência das aberturas de linguagem, parabéns mais uma vez pelos escritos. Lerei com mais calma! Abraços.

Danilo Castro disse...

Kiko, legal. A ideia é ampliar mesmo e não só traduzir, mas descobrir possibilidades porque as línguas podem se tornar estética.