segunda-feira, 11 de março de 2013

O ar que se esvazia da câmara

Espetáculo Credores, da Cia. Mamba de Artes
Sempre que me inquieto com um espetáculo que se esvazia em suas proposições, fico me questionando até onde minha percepção apreendeu a obra de maneira pessoalista e até onde meu olhar distanciou-se a ponto de lançar comentários ponderados sobre o trabalho. Como criticar fugindo das minhas ideologias se estas constroem diretamente meu olhar de apreciador sobre o mundo e, consequentemente, sobre a arte? Após deparar-me com o espetáculo Credores, da Cia. Mamba de Artes, fiquei instigado a me cutucar na mesma proporção em que pretendo cutucar a encenação com a qual esbarrei-me no último final de semana, no “porão” do Centro Cultural São Paulo (CCSP).

Na obra dirigida por Nelson Baskerville, a teatralidade grita desesperadamente ao pé dos olhos. As imagens, a sujeira, a estética, o estilo de atuação e encenação são caóticos, superabundantes, de uma escatologia bela, de um grotesco poético. Ainda que o elenco esteja uno, há pequenas oscilações nas atuações, que podem deixar o trabalho mais cortesão que espontâneo. O desprendimento – e a beleza, porque não? - de Bruno Perillo, Carolina Mânica, Flávio Barollo e Iza Bela Alzira vão criando uma energia desavergonhada e segura entre eles e nós, como quem seduz criança com doces ou cão com ossada bovina.

Mas o que me causou essa sensação de carência - pessoal ou impessoal – no trabalho foi a dramaturgia assinada pelo sueco August Strindberg, em 1889, e adaptada pelo diretor em parceria com o grupo. A peça conta o caso de Carolina, Bruno e Flávio, em um triângulo amoroso onde absolutamente nada surpreende ou difere das tramas de telenovela. Não sei se sou eu que não mais tenho paciência para historinhas bê-á-bá de início-meio-fim ou se precisamos reescrever essas tramas no teatro contemporâneo, deshierarquizando a própria ideia de drama.

A forma se mostra completamente oposta ao conteúdo. E essa oposição, ao meu ver, não é daquelas positivas que tanto reivindicamos no teatro. A obra, então, acaba descompassada em uma trama um tanto pueril e tradicional imersa em uma poética visual tão instigante. E me pergunto como espectador carente: onde a Cia. Mamba de Artes pretende chegar com o trabalho? Que questões querem despertar para o seu público? Será um trabalho de contestação imagética? De rompimento com os moldes cenográficos e estéticas tradicionais? Ou será mesmo relevante a história de amor do trio?

Então, provoco o grupo de maneira propositiva: será possível encenar sem estar alicerçado em um texto esvaziado? Porque, por mais que o pito esteja atarraxado, haverá sempre fissuras cênicas que podem secar a câmara, paulatinamente, até que ela fique completamente murcha e nós, público, saiamos da sala de teatro somente achando lindas as imagens ou afinados os cantos. Mas, para não deixar de vivenciar a beleza do incômodo, pergunto-me: será que o esvaziado sou eu?

Danilo Castro
11/03/2013

Serviço
Credores fica em cartaz no Centro Cultural São Paulo até dia 31 de março, de quinta à sábado, às 21h e domingo, às 20h. O ingresso custa R$ 5 (inteira).


Assista o teaser do espetáculo:

3 comentários:

Francisco Wagner disse...

Adorei o texto. E compreendo completamente sua inquietação...

Magno Silva disse...

li o texto - denso.

Andrei Bessa disse...

Teria muito a falar sobre esse trabalho... mas ele nao me despertou interesse nem para isso... gosto do teu txt, concordo principalmente com o vazio... mas nao concordo exatamente com os motivos.... para mim, o vazio parte dos atores, o txt que vimos é fraco, mas não sabemos se a culpa não está na adaptação....