sexta-feira, 8 de março de 2013

O homem invaginado


Ilustração: Carlus Campos
Ela chegou numa manhã de sábado, linda, vestida num pacote tão apertado que estava quase parindo sem minha condução de obstetra. Peguei o bisturi e cuidadosamente fiz o corte. Quase firo a criança. Do lado de dentro, um conto de Mia Couto. O bebê viajante me fez sair da rotina, me fez deitar na cama para ler, em papel, um pedaço de uma história moçambicana que respingou na ponta de cá do Atlântico. O personagem, sem mãe, aprendeu com o pai que quando o mundo estivesse acabando, bastava fugir por um “corredorzito” secreto no meio do mato. Compadecido feito Maria, fiquei querendo que aquele menino fosse meu. E, oscilando entre mundos que não importa agora se são reais ou irreais, eu consegui.

Quando digo convicto que posso o que eu quiser, é porque não posso. Protegido pela criatividade que me brota, vou ostentando-me como um mito inenarrável, acreditando que tudo é possível porque é bonito forjar um mundo novo e poder compreendê-lo. Porque é mais confortável mentir para conviver melhor com a impossibilidade de ser. Mentir me fortifica, porque na arte me torno um deus, ofuscando beneficamente a minha fraqueza, como quem calunia para não sofrer.

É que eu queria ser mãe (ou quero, não sei). Porque ainda vou sentir uma coisa crescendo na minha barriga até que a coisa não suporte mais ser só minha para ser do mundo. Porque eu já decidi ser mãe e ponto. Mas entre o plano metafísico e a verossimilhança há um foço, daqueles em que se pula para gozar do vento estapeando o rosto sem que seja possível saber do amanhã. É que eu queria jogar-me nesse abismo para viver o processo todo de maturação da criatura dentro de mim. É que eu queria ser-me incontrolável. Sentir esse membro desprendido que pontapeia no ventre. É bobo, mas queria sentir o peito crescendo com líquido dentro. Sentir uma criatura sugar alimento de dentro de mim para sobreviver.

E eu, no alto da minha lucidez poética, também posso, acho. Eu sei que as costas doem, que as veias estouram, que a pele se rasga pra sempre. Tudo bem, eu acato. Esse processo de poder sem poder ser o que eu quiser faz de mim um menino invejoso, porque só poderei experienciar essa mutação quando eu colocar-me nesse estado de irracionalidade criativa. Na arte eu posso tudo, mas nem só de arte se faz vida. Porque esta é infinitamente mais incrível que aquela.

Aqui, como um falador de estórias, me será possível a história que eu quiser, mas, acolá, distante deste meu mundo em letras, sou aquilo que a natureza impôs-me como verdade. Por que? Eu sei, é tolo tudo isso, mas prefiro invaginar-me em devaneios que ser oprimido pela aspereza da vida. Agora eu já sei, quando o mundo estiver me espremendo, é só fugir por aquele corredorzito secreto no meio do mato e ser a Mãe que eu quiser. E não vou ter vergonha de renunciar a dor em nome do impossível, porque essa me será pra sempre uma fórmula de liberdade.

Danilo Castro


3 comentários:

Domitila Andrade disse...

Aí vem o Dandan e diz isso assim, desse jeito tão lindo, que a gente até crê que as palavras lhe vem do útero

Sara Rebeca disse...

Eu juro que corri pro jornal, hoje, doida pra lê-los. Sem antes, claro, cumprir o que me recomenda o amor de mãe, de dona de casa, de esposa: alimentar e acarinhar a cria, preparar a merenda e recolher a roupa suja da casa para lavar, e dar beijos - com boca de hortelã - no escolhido.
Gostei muito de todos, especialmente os de Danilo Castro e de Jocélio Leal .
Um deleite as leituras de "Elas pelo olhar deles".

Dois Rios disse...

Danilo, encantamento é, também, uma palavra gerada pela arte. Arte essa de parir sonhos, desejos e verdades.

Nosso amigo Thiago, do Bagagem Clandestina, me recomendou tua belíssima crônica gerada, aliás, a partir de um gesto que lhe é peculiar: disseminar belezas. E beleza é isso. A gente oferta para que ela frutifique. Ei-la aqui, em cachos de puro enlevo.

Parabéns, Danilo! Você sabe tirar do fruto a sua melhor semente.

Encantada!

Beijos,
Inês