quarta-feira, 3 de abril de 2013

Exposição deliberada de si


Testemunho de vida, terapia ou obra de arte? No espetáculo Luis Antônio - Gabriela, o diretor paulista Nelson Baskerville faz um ferino pedido de desculpas à irmã travesti

Marcos Felipe em cena de Luis Antônio - Gabriela 
Danilo Castro
ESPECIAL PARA O POVO

É natural que um artista se embeba de sua própria vida para transformá-la em obra de arte. Em pequena, a escritora carioca Nélida Piñon achava que tudo que ela lia em um livro havia acontecido com o seu respectivo autor. Sentia-se então obrigada a ser uma aventureira para poder ter o que contar nas suas obras. Com o tempo, ela foi percebendo que a crueza da veracidade não lhe era absolutamente necessária para que pudesse narrar. A arte tem suas licenças, portanto, não há limites para a fabulação, para a inventividade.

Mas, não importa o quanto fabulemos: a arte será sempre inferior à vida. Talvez seja por isso que muitos artistas tenham o tom autobiográfico como marca em seus trabalhos, mas nem todos têm o desprendimento que transborda uma exposição deliberada de si. É o que acontece no espetáculo Luis Antônio – Gabriela, da Cia. Mugunzá de Teatro, apresentado na última segunda-feira, 1, durante a abertura do Festival Palco Giratório em Fortaleza. Na obra, temos diante de nós não só um espetáculo, mas a própria vida.

O diretor paulista Nelson Baskerville não teve receio em fazer um pedido de desculpas. A obra conta a quase-irremediável e conturbada relação de Nelson com Luiz Antônio, ou melhor, Gabriela (Marcos Felipe), sua irmã mais velha. Ela, que “nasceu no corpo errado” por ter uma “vírgula” talvez indevida, morreu em 2006. Nelson poderia selecionar apenas aquilo que não o comprometesse nessa trama real, mas chega a revelar inclusive as ingênuas “brincadeiras” fraternas de “troca-troca” que vivenciou na infância. “Você já viu um homem soltar leite?”, perguntava Gabriela ao meninote.

É ferino e chocante. É a própria vida. Sua estética polissêmica e superabundante versa intimamente com as intervenções plásticas e audiovisuais. Os documentos, fotos e vídeos reais são exibidos em cena, atestando uma verdade crua, seca. Parece que estamos diante de um turbilhão de memórias, texturas, imagens e sons despejados sem refinamento algum numa arena cênica, onde nossa contemplação é embargada pela vida-real descendo à força pelo esôfago. Seria esse trabalho uma terapia realizada como forma de superação de um trauma? Por que não? Qual a ilegitimidade de desnudar-se para curar-se e, ao mesmo tempo, compor arte?

Gabriela não é vilã, nem é vitimizada. É humana, como todos nós. É uma memória viva em Nelson e nos seus atores, que tão bem compraram o testemunho de um diretor que não se resume a isso. Luiz Antônio – Gabriela está muito além de Nelson. É o íntimo de uma sociedade opressora – que não sabe lidar com a própria existência. A obra não é tratamento para uma superação pessoalista, é para curar qualquer homem, mulher ou mesmo aqueles que estejam transitando entre os gêneros e não sabemos o que fazer diante disso.

Saiba mais

A programação do Festival Palco Giratório segue até dia 30 de abril com preços acessíveis (R$ 10 e R$ 5) em diversos espaços da Capital. Programação em www.sesc-ce.com.br. Outras informações: 34529090.

Fonte: Jornal O POVO Caderno Vida & Arte (03/04/2013)

5 comentários:

Edson Cândido disse...

Lindo e tocante texto.De fato é impossível manter-se longe das nossas referência.Morro e vivo a casa espetáculo mas preciso "vomitar" minha dores no palco.

Marcos Felipe disse...

Danilo,

Lindas suas palavras e percepção!

beijo no coração. Vou divulgá-la no face do grupo!

Karl Pinheyro disse...

Danilo foi fiel em sua crítica,
"é ferino e chocante. É a própria vida." Como já disse, se um décimo da população visse Luis-Antonio tudo seria melhor! Esses caras e minas são do Carvalho.

Jardeline Santos disse...

Parabéns pelo texto Danilo Castro. Você como sempre, tendo uma sensibilidade incrível ao escrever sobre a arte.

Walmick Campos disse...

parabéns ao espetáculo e ao crítico!

são ambos exemplos do que precisamos no fazer e falar sobre teatro.