sexta-feira, 24 de maio de 2013

Teatro que brota da terra

Conheça o projeto de formação avançada em teatro que acontece no Assentamento Todos os Santos, a 140 km de Fortaleza, com grupos de vários municípios do 
 

Sérgio de Carvalho e Ney Piacentini ministram formação
com alunos da Escola de Teatro da Terra

Danilo Castro 

Tome um ônibus na rodoviária de Fortaleza e desça 115 quilômetros depois, em Canindé. Em seguida, no centro da cidade, suba em um pau-de-arara e siga mais 32 quilômetros mato adentro. Chegaremos então ao Assentamento Todos os Santos, surgido em 1996 remanescente de uma comunidade sem terra. No local, 110 famílias vivem em sistema colaborativo. Parte da plantação e dos animais é de responsabilidade de todos e dividida entre os moradores. 

Ali, embrenhada no mato, existe a charmosa Casa de Cultura, criada em dezembro de 2010 para abarcar projetos de teatro, dança, audiovisual, circo e outras artes. O espaço - construído pelos moradores - possui um galpão, palco, camarim e salas de administração. O local também é sede do Grupo Carrapicho de Teatro, existente há 15 anos na comunidade. Desde março de 2013, foi criada a Escola de Teatro da Terra, coordenada pelo diretor do grupo Nóis de Teatro Altemar de Monteiro. A escola é fruto do Projeto Arte e Cultura na Reforma Agrária, viabilizado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). O curso prevê formação em seis módulos para os grupos de teatro da zona rural.

Nomes como Sérgio de Carvalho e Ney Piacentini (SP), Silvero Pereira (CE), e Miguel Campelo (RJ) já passaram por lá. Ao todo, 22 jovens de grupos oriundos de nove assentamentos rurais cearenses passam por aulas que acontecem em três etapas. Na primeira, durante uma semana, o trabalho acontece com o professor convidado. Na segunda etapa, as lideranças levam o conteúdo apreendido para os companheiros de trabalho. Em setembro (quando acontecerá o último módulo), os alunos comporão uma obra cênica, guiada pelo professor e diretor João Andrade Joca (CE). O trabalho circulará por todas as localidades envolvidas. A ideia é poder formar uma turma por ano. No conteúdo, assuntos como Teatro de Rua e a Poética do Espaço; Teatro Político; e Corpo, Tradição e Contemporaneidade são alguns norteadores.

Além da enxada

Mas, o que isso representa para o teatro brasileiro? É importante compreender que ações desse gênero fortalecem a cultura para a população afastada dos grandes centros. A cena teatral no interior carrega consigo suas limitações, mas esses artistas não podem ser encarados como “iniciantes”, com atividades superficiais. É um avanço sair do discurso de um projeto que poderia ser de simples “montagem teatral” para ampliar o teatro como debate político sobre descentralização cultural.

Não se trata de uma ação social para entreter jovens de uma zona muitas vezes esquecida pelo poder público. Trabalhos desse tipo, que poderiam ser pontuais, nesse caso, tornam-se sementes de transformação cultural. Isso porque a escola gera “multiplicadores cênicos”, formados de maneira aprofundada, com ensino especializado ministrado por teóricos e artistas de peso para as artes cênicas no Ceará e no Brasil. Para um jovem do interior, que sonha ser artista, passa a ser possível fazer arte no seu entorno, levantando também causas e dilemas à sua volta.

A própria relação do homem entre o campo e a cidade ou diante do direito sobre um espaço oriundo de ocupação são dialéticas potentes para serem levadas à cena. O ainda comum êxodo rural juvenil nesses nichos pode aos poucos perder espaço para esses novos e antigos artistas. Isso porque é bonito vê-los tendo orgulho da sua terra e podendo fazer o que amam no seu lugar, criando não só um cenário estético teatral no sertão, mas todo um pensamento difusor de arte e um legado que culmina numa nova dinâmica cultural, mesmo que distante da cidade grande.

Serviço

Escola de Teatro da Terra Casa de Cultura 
Assentamento Todos os Santos, Canindé.
Outras infos: (85) 3299 1344
Saiba mais sobre o projeto em www.facebook.com/escoladeteatrodaterra

EM CENA: Ocupação - Os primeiros passos do Garça Torta
O Projeto Garça Torta, ocupação artística capitaneada pelos artistas Gabriel Matos, Honório Félix, Lara Ferreira Freire, Robson Levy e Tayana Tavares, está dando seus primeiros passos. O espaço recebe performances diversas reunindo vários artistas, além de possuir um bazar, bebidinhas e comidinhas. Rua Azevedo Bolão, 639, Parquelândia. Informações: 8679 4251 ou www.facebook.com/tortagarca

FORA DE CENA: Teatros em reforma ou de portas fechadas
Poucos são os espaços para apresentação na capital, ainda assim, lugares de referência como o Teatro do CCBNB continuam com destino incerto. O Teatro Carlos Câmara foi reformado, mas ainda está inativo. O Theatro José de Alencar vai fechar para reforma a partir de junho. O Teatro Dragão do Mar já está sendo reformado, consequentemente, sem programação. O Teatro Sesc Senac Iracema fechará em breve também para reforma. O Teatro São José está cheio de projetos, mas continua fechado. Sem contar com o Cine São Luiz, que também servia para apresentações e está fechado há anos. Resta aos artistas cênicos se esturricarem, como sempre, a procura de pautas na cidade e alternativas mil para exporem suas obras.

PRA NÃO PERDER: Ensaio sobre Hamlet 
O Grupo Experimental de Teatro apresenta o espetáculo Ensaio Sobre Hamlet, a partir do clássico de William Shakespeare. A apresentação acontece sábados e domingos de maio, às 20 horas, no Teatro Sesc Senac Iracema (rua Boris, 90c – Praia de Iracema). R$ 12 (inteira) R$ 6 (meia). Informações: 8761 9532.

Fonte: Coluna Imagem & Movimento - Caderno Vida & Arte - Jornal O POVO (24/05/2013)

2 comentários:

Vitor Blam disse...

Parabéns Galera!

Altemar Di Monteiro disse...

Emocionado com as palavras Danilo Castro. Parabéns pela sensibilidade na percepção dos novos caminhos traçados.