domingo, 23 de junho de 2013

“Isso é um deboche ao teatro!”

Foto de Levy Mota
Nunca, em dez anos de trajetória com o teatro, imaginei que eu fosse passar por uma situação dessas – tão delicada. Em meio a uma plateia de 30 pessoas, nossa capacidade para cada sessão do Projeto Achados & Perdidos, um homem se levanta, interrompe a cena e grita enfurecido: “Eu não aguento! Eu não aguento! Isso é um deboche ao teatro! Pra quê? Pra quê tanta violência gratuita? O tema da memória é riquíssimo, mas eu não aguento vocês!”. Após isso, ele se retirou da pequena e aconchegante sala do Grupo Pavilhão da Magnólia. 

Silenciamos e a apresentação continuou meio suspensa com aquele depoimento inusitado que reclamava da nossa violência numa das cenas, mas que, ao mesmo tempo, tão bruscamente nos violentou. Horas depois, recebemos um depoimento emocionado de um outro espectador: “As sensações despertadas ao longo do espetáculo nos fazem viajar pra dentro de si, às vezes nos causando sensação de revolta, outras vezes de alegria. Enfim: há tempos não assistia um espetáculo que me tocasse, obrigado”. 

Muito interessante esse jogo de contrastes que nosso projeto vem causando no público. Eu poderia não escrever sobre o ocorrido, fingir que nada aconteceu pra não espantar quem ainda não nos assistiu, mas não estamos fazendo teatro para receber elogios, nem para direcionar como o público deve se comportar. Estamos nos desafiando o tempo inteiro, nos colocando em risco. Não estamos fazendo cena, escondidos sob personagens, nem fazendo pactos ficcionais. Estamos vivendo, sofrendo na carne, porque escolhemos isso. Tem gente que não aguenta, como por diversas vezes não hesitei em me retirar de espetáculos difíceis de digerir. E não estou falando apenas de qualidade. 

No final de semana de estreia, fomos surpreendidos pelo choro compulsivo de um dos espectadores ao inserirmos em cena a memória do seu cachorro que havia morrido no dia anterior (Ele havia doado ao projeto a coleira do seu animal de estimação). Não queremos que nos amem ou nos odeiem: queremos poder discutir. Bem, não condeno este homem que ontem se sentiu violentado – apesar de na hora ter ficado abismado com sua coragem de gritar conosco em meio ao nosso “ritual”. Talvez este homem seja uma válvula que nos instigue mais ainda a caminhar nesse abismo cênico que criamos. Arquemos com as consequências.

Danilo.
23/06/2013

20 comentários:

Sabrina Lima disse...

Acho que você e todos os atores devem receber a crítica desse senhor como positivo, afinal, ele teve uma reação forte e creio que até mesmo ele se assustou com o poder da peça. Adoro teatro e principalmete peças que me faça refletir e mudar meu olhar. Sucesso.

Dette disse...

Danilo,eu como espectadora, me achei e me perdi diversas vezes durante o espetáculo,chorei muito quando tu vasculhou as memórias de nossa família, fiquei curiosa tentando desvendar as memórias dos outros dois, senti um vazio, como se houvesse uma resposta ou explicação prá tudo na vida...enfim, me senti mexida e remexida. Alguns não aguentam o tranco,isso é o teatro.Sucesso prá vcs.

Marcelo Guerra disse...
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Marcelo Guerra disse...
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Felipe Sales disse...

Marcelo Guerra! Acho que o espetáculo (e não despetáculo, como disse) te tocou numa área tão sem defesa que você, atônito, agiu como agiu. Todo esse seu conhecimento artístico parece inexistente diante do teatro (e não anti-teatro) que viu. O que você faria se estivesse diante das obras ready-made de Duchamp? O teatro não é um só, mas múltiplo. Certamente não pode ser apenas o "pretending" (e os americanos ainda hoje estudam um caminho que o próprio Stanislavski, no fim da vida, sugere que não sigamos)! Talvez sua filha não seja a melhor pessoa pra te ajudar, por mais estudiosa das artes cênicas que seja, simplesmente porque ela não estava lá. Uma coisa é você contar o que viu. Outra coisa é ela ver, presencialmente (teatro). Mas fico feliz com tudo isso que aconteceu com você (e com todos nós que estávamos lá), porque isso te sacudiu, e te deixou mais acordado para a crueldade* da vida (*Aratud)! Que permaneça acordado!

Andrei Bessa disse...

Oi Marcelo,

sou Andrei Bessa, o quarto artista diretamente envolvido no Projeto (e que não está em cena).

Seu texto é longo, cheio de voltas e precisa ser lido com cuidado - devido as possibilidades de desdobramentos. Em breve volto aqui a continuarmos esse diálogo.

Andreços

Marcelo Guerra disse...

Andrei, obrigado pela sua delicadeza em (1) se apresentar dizendo de onde fala (senão como poderia haver resposta e, assim, diálogo?) e (2) retribuir a matéria prima com a qual forjei meu texto: o cuidado com o dito.
Aguardarei com prazer a continuação desse diálogo, que é sempre enriquecedor, quando genuíno.
Abraços

Thiago Cavalcante disse...

Danilo, meu amigo, sinto-me preso aqui em S. Paulo por não estar presenciando com meus olhos o “Projeto Achados & Perdidos”. Nome que confirma o que aqui tem sido conversado através dos comentários: Há aqueles que se acharam: Há aqueles que se perderam: (Há aqueles que desejam “O Achar”). Verdade maior e que deve ser respeitada é que, para sorte e respaldo, os que se acharam confirmam que é possível fazer teatro indo além do que é plausível de obter significados. Porque se assim não fosse, o teatro seria muito pedante. Recordo-me daquela carta que Lúcio Cardoso trocara com Clarice Lispector acerca do teatro que Lúcio estava a visionar, onde o desejar e o fazer teatro estariam encharcados de uma nova perspectiva de cena, de atuações, de textos...
Consigo entender (?) a reação do homem que grita “eu não aguento!”, aqui revelado como Marcelo Guerra; mas não consigo compreender seu discurso que destoa no imenso texto que escrevera nesse post. Aprendi (nos anos idos que frequentei uma igreja evangélica) que o “espírito humano é sujeito ao profeta”, isto é, eu posso não concordar com determinada situação, mas MINHA OPINIÃO não pode desrespeitar a opinião dos outros. Sendo mais claro e objetivo: 29 pessoas também pagaram (!) para assistir ao espetáculo, se uma não se sentiu com inteira paz para continuar na plateia (seja ela grande ou reduzida a 30 cadeiras) isso não lhe dá o direito de interromper o espetáculo (inda mais alguém que tem ampla formação acadêmica, como aqui fora amplamente revelada). Isso pra mim tem nome: falta-de-educação.
Falo em discurso destoante porque eu procurei encontrar no texto de M. Guerra (li o exaustivo escrito) possíveis justificativas para o injustificável, mas só encontrei “eu sou isso... eu tenho aquilo... eu já experimentei aquilo outro”. E escrevo isso não para tomar partido a favor da apresentação que vocês têm desempenhado, não mesmo; mesmo porque ainda não tive o prazer de ver o projeto. Mas escrevo, em verdade com F. Sales, “o teatro não é um só, mas múltiplo”. E fico em estado grato de alegria ao saber que, agora me utilizo da fala de M. Guerra: “nem todos somos iguais.” E é com essa certeza, certeza da diferença, que estimo sucesso ao grupo.
Tens meu abraço, amigo: com inteira paz.

Marcelo Guerra disse...

Prezados Danilo e Andrei,

Dei meu recado. Mais: fiz-me inteiramente explícito, corajosamente nu (mas não como tantos Reis nus, que andam por aí), tornando explícita minha intimidade. No entanto, não posso deixar-me aqui assim exposto para ser achincalhado.
Sucesso nas carreiras de vocês.