quarta-feira, 26 de junho de 2013

Que mercado é esse?

A relação engendrada entre teatro e mercado não pode ser mal interpretada. Grupos de teatro pelo Brasil mostram que é possível viver de arte, enquanto mainstream lucra com políticas públicas
Musical Alô Dolly conta com financiamento
federal através de Lei Rouanet
Danilo Castro

Por que ainda é comum a evasão de atores para o eixo Rio de Janeiro-São Paulo? Sempre me questiono sobre os fetiches que o mercado da “arte” dessas duas grandes metrópoles brasileiras provocam no restante do País. Em outros tempos, essa característica de “vou embora em busca dos meus sonhos” era mais forte. A teledramaturgia brasileira, concentrada no Sudeste, também exerce uma violenta influência sobre esses sonhadores, como se somente nessas capitais fosse possível viver da profissão de ser ator.

Contudo, a organização de diversos coletivos artísticos e grupos de teatro, que se consolidam fora do eixo que tem mais visibilidade da nação, vêm mostrando que é possível transformar a realidade do seu entorno. Quem cria o mercado somos nós. Se fugirmos dele à procura de holofotes, caminharemos a passos ainda mais lentos. O teatro de grupo no Brasil precisa ser reconhecido pela população como o teatro de melhor qualidade produzido no País.

A dificuldade maior é que os artistas de grupo trabalham dentro de uma lógica contraproducente, longe dos interesses lucrativos que o teatro mercadológico dessas grandes capitais carrega consigo. Nos grupos, existe um interesse real em manter a continuidade de uma pesquisa estética e de uma atuação social. Por mais que os trabalhos não sejam militantes, engajados ou educativos, no teatro de grupo haverá, na maioria das vezes, uma proposta profunda de reflexão para quem faz e quem vê. Isso é bem diferente do mainstream de celebridades em cena, viajando com besteiróis a preços exorbitantes. Enquanto em muitas profissões se trabalha para ganhar dinheiro, no teatro de grupo é preciso de dinheiro para trabalhar.

Espetáculo cearense As Bondosas, da Cia. de Teatro Lua,
produzido de maneira independente
A Lei Rouanet, por exemplo, que surgiu em 1991 como uma grande conquista para a arte, em boa parte, é rendida ao mercado. Quando projetos artísticos são financiados por empresas por meio da lei, uma série de impostos é reduzida. Com isso, a iniciativa privada se sentiria estimulada a patrocinar eventos culturais e o teatro, consequentemente, ganharia investimentos mil. Bom para os todos os lados, certo? Errado. O que vale mais à pena para a visibilidade de uma empresa: financiar um grupo independente ou uma produtora de teatro de elenco com atores recém-saídos da novela das 20h? Claro: não dá para generalizar, mas boa parte das relações de patrocínio acontecem numa lógica fajuta que não fomenta a identidade cultural nacional. Os grupos de teatro de São Paulo e do Rio de Janeiro passam pelas mesmas dificuldades que os grupos no Nordeste. Eles também estão à margem por estarem fora de uma rota emplastificada que rende milhões a produtores anualmente.

Na capital paulista, há a Lei de Fomento, que desde 2002 financia grupos de teatro após concorrerem edital semestralmente. Essa é uma das maiores referências de conquistas de políticas públicas para o teatro, mas ainda é pouco diante da demanda nacional. E porque é obrigação do Governo financiar grupos de teatro? Porque há uma contrapartida social imensa, um retorno qualitativo à sociedade. É preciso que os grupos se articulem cada vez mais para continuarem cobrando dos governos municipais, estaduais e federais, mas que também descubram outras formas de financiamento que não sejam apenas através de editais.

Há mercados e mercados. Daqueles interessados em mercantilizar a arte, já estamos saturados. É preciso desenvolver no País outro tipo de relação entre mercado e arte, que não limite a criação, nem a criticidade artística. São caminhos de visibilização, descentralização, profissionalização e rentabilidade que possuem inúmeros exemplos em todas as pontas brasileiras, mas é preciso ainda mais. O desfecho disso tudo é uma população com mais acesso à produção teatral alternativa e, quem sabe, menos atores deslumbrados com os holofotes da fama.

EM CENA
Vaquinha virtual] Financiando Orlando

O grupo cearense Expressões Humanas, que já carrega 22 anos de história, está com uma campanha no site Catarse para arrecadar fundos em nome do seu novo espetáculo intitulado Orlando. Acesse: www.catarse.me/pt/orlando e colabore. A meta é R$ 10 mil.





FORA DE CENA

Dragão do Mar] Resultado de editais com três meses de atraso 
O resultado do edital das artes do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC) ainda não saiu. A previsão era que os projetos aprovados ficariam cientes no dia 12 de março. Chegamos à metade do ano e nada de programação via edital 2013, apenas ações convidadas. Uma das justificativas para a demora são as reformas nos espaços. Entretanto, esse mês, um espetáculo está em cartaz no teatro. Que reforma é essa?

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