quarta-feira, 17 de julho de 2013

Como representar o teatro?

O espetáculo Como representar os negros?, da Universidade Federal do Ceará, rompe estereótipos da discussão inter-racial entre pretos e brancos e se posiciona politicamente diante do próprio teatro

Fotos de Sol Coêlho
Como representar os negros?, surgido de uma das disciplinas do curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal do Ceará (UFC) é, sem dúvidas uma prova de resistência. São três horas e meia de espetáculo e eles, os artistas, estão dispostos a nos colocar diante da parede. Estamos nós, público, consumindo um produto de entretenimento teatral ou estamos diante de uma obra que polemiza e incomoda, em vez de entreter? Estamos diante de um evento cênico ou diante de uma experiência mútua entre artistas e apreciadores?

A lógica do Coletivo Pathos na sua proposta de encenação resulta numa obra aberta, política e ousada, que confronta a própria noção de obra teatral para o mercado. A forma já é, por si, uma atitude política tanto quanto o seu controverso conteúdo. O tempo de duração do trabalho também. A dramaturgia farsesca nos coloca ativos dentro da obra e nos deixa confusos. Somos vítimas ou vilões? Somos negros ou brancos? O trabalho, dirigido pelo professor Thiago Fortes, está bem além da discussão inter-racial, pois é uma obra que evoca uma experiência humana.
















Ao encenarem o texto do francês Jean Genet, eles mostram as dialéticas e contradições da relação racial entre negros e brancos. Não, definitivamente não estamos diante de um espetáculo militante, de uma obra que luta em prol do movimento negro. Não, não estamos diante de uma obra com teor racista. Estamos diante de uma obra estranhamente construída sobre pilares estéticos e dramatúrgicos desprendidos, ousados. Tanto que o trabalho poderia se chamar também Como representar os brancos?, quem sabe. Haja tinta preta no chão, farinha, sujeira, lixo escorrendo pelos corpos nus dos atores.

É uma obra contraproducente, trabalhosa. Mesmo com pouca verba e uma equipe de produção que praticamente se resume aos próprios artistas de cena, eles não se tolheram, não impuseram dificuldades antes mesmo de vivenciarem destemidos seus experimentos de cena. Depois de Um lugar para ficar em pé (2012), espetáculo também da UFC dirigido por Hector Briones, parece que uma linha estética vem sendo desenhada bem distante da cena tradicional. Que bom, é arriscando que nos desenvolvemos como linguagem.

Por mais que o trabalho seja bastante cansativo e oscile entre os momentos de picos histriônicos e depressões profundas, a experiência é válida. Ver atores tão jovens, de idade e de palco, mas dispondo-se ao risco de forma madura, é lindo. Criticar é pensar em um espetáculo tentando contribuir com a obra, tentando fazer deste texto que você lê agora um objeto formativo, que propulsione o debate entre os artistas e público, mas não consigo não ser pessoal diante da minha própria percepção. E, como sei que o Coletivo Pathos não está à procura de elogios, vamos debater! E que possamos fazer isso da melhor maneira possível.

Parece que nem eles, nem nós sabemos direito como os pormenores da riqueza estética construída nos/lhes atingem. Estamos todos digerindo e aprendendo. Na obra, há também a tentativa de misturar a linguagem audiovisual às cenas, mas os vídeos exibidos, durante a última sessão, não foram possíveis de enxergar. Falhas técnicas são naturais e a temporada de estreia serve para que esses ajustes sejam aos poucos acertados e reconstruídos, refinados. Fiquei cansado, muito. Não assistiria novamente. A obra se excede no tempo sem conseguir domar seu público ou vivenciar demora se faz realmente necessário? Não sei, imagino que é possível reduzir trechos sem danos. Mas, apesar de cansado, saí do teatro feliz. Que possamos, cada vez mais, não temer julgamentos e que entremos em cena vívidos, prontos para gritar como quem acaba de ser parido ao mundo.

SERVIÇO
 Como representar os negros?
Onde: Sesc Senac Iracema (Rua Boris, 90c – Praia de Iracema)
Quando: Sábados e domingos de julho, às 20h.
Programação gratuita.
Informações: 96704248

PRA NÃO PERDER
No cemitério
Limites da ficção e da realidade
O espetáculo Além dos Cravos, do Grupo Em Foco, continua temporada gratuita aos finais de semana de julho, sempre às 16h, no Cemitério São João Batista. Não é apenas um espetáculo, eles propõem uma vivência no cemitério, mesclando-se entre os limites da realidade e da ficção.

DICA
Circuito alternativo
Nove sedes de grupos teatrais
Fortaleza carece de espaços para pautas. Os teatros estão fechados, sem agenda ou entrarão em reforma em breve. Pensando em minimamente sanar as falhas das secretarias de cultura estadual e municipal diante das suas casas de espetáculo, o Movimento Todo Teatro é Político lança o I Circuito Alternativo de Teatro, entre 24 a 28 de julho, com apresentação de 20 trabalhos em nove sedes de grupos teatrais de Fortaleza. Inf.: www.circuitoalternativodeteatro.blogspot.com.br

Fonte: Coluna Imagem & Movimento - Caderno Vida & Arte - Jornal O Povo (17/07/2013)

4 comentários:

Renan Martinz disse...

Dica preciosa, texto impecável. Curti!

Silvero Pereira disse...

Li e adorei. To louco pra ver esse espetáculo.
Danilo Castro vc é um absurdo escrevendo! Parabéns!

Thiago Arrais disse...

Thiago Arrais Gosto da tua sinceridade escrevendo sobre teatro. tem que ser por aí mesmo!

João Paulo Barros disse...

Parabéns e obrigado por suas contribuições.