sábado, 20 de julho de 2013

Onde estão os estripadores?

Espetáculo Corpornô, da Cia. Dita. Foto de Sol Coêlho.
Cia. Dita,

Em primeiro lugar, quero frisar que não vou utilizar aqui as palavras: nu, pornô e erótico, nem suas derivadas – talvez isso seja um tiro no pé. Essa decisão se deve ao fato de que minha intenção aqui é refletir sobre outras questões, também ligadas ao conteúdo e a forma, mas em outras instâncias. Apesar de ambos serem indissociáveis. Em verdade, eu, feito menino bobo que aguarda o novo livro da saga Harry Potter, ansiava o seu novo trabalho intitulado: Corpornô. Isso porque, ainda no ano passado, assisti seu ensaio aberto e fiquei todo aporrinhado, como bem sabe. 

Tanto que isso resultou na minha humilde listinha dos espetáculos cênicos que acredito que propulsionaram a cena cearense em 2012. Algumas cenas para contemplação nos foram apresentadas naquela noite de ensaio entre as quatro paredes do Teatro Sesc Senac Iracema. Afora isso, foram expostos alguns vídeos-testemunho sobre uma relação-sexual-afetiva-triangular entre dois artistas da companhia e um belo rapaz.

Noutro momento, francamente, cada um tomou o microfone e relatou suas mais “nirvânicas” experiências sexuais. A exposição que me aporrinhou não foi a dos corpos dos seus artistas abertos na cara do público, não foi a do fleur-de-rose à meia luz, nem mesmo a dos cinco dedos descavernando um ânus. O que me deixou inquieto e interessado foram os vídeo-depoimentos e a franqueza das memórias dos seus artistas, que tão intimamente nos fizeram penetrar em suas vidas. 
















Venho compreendendo cada vez mais determinados grupos sendo compostos por “entidades artísticas” no melhor sentido desse termo. Não consigo mais olhar para determinadas pessoas separando-as dos seus contextos de trabalho/artísticos. Em você, Cia. Dita, vejo que vida é obra e obra é vida - tão indissociável quanto a forma e conteúdo que citei no início dessa cartinha aberta. E ver essa disponibilidade de seus artistas para revelarem-se muito além dos seus corpos me era o mais instigante, me colocava em choque com a própria realidade.

Aí, meses depois, fui ao Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno e o vi todo lindo, efervescendo de gente, como noutros tempos. (Um salve ao Grupo Pavilhão da Magnólia que não está deixando aquele espaço morrer, diferentemente da própria Universidade Federal do Ceará, a verdadeira responsável). Mas, em vez do mote memorial que tanto me instigou, vi apenas [quadros] e [quadros] e [quadros] e [quadros]... 

Não estou aqui reivindicando uma dramaturgia linear ou menos fragmentos. Não estou discutindo com base nas críticas conservadoras e equivocadas que lhe acusam de trabalhar com “nudez gratuita”. (tiro no pé: usei um derivado que não queria utilizar). Cia. Dita, só imaginava que iria ver seus artistas estripando-se além da própria forma. Fiquei então à mercê do seu belo exibicionismo da linguagem (trato disso como algo natural, visto que o voyeurismo também nos é proposto a partir de seus motes). Aí fui pra casa cabisbaixo, me repreendendo por criar expectativas sobre um trabalho. Deveria ter ido assisti-la indiferente, como quando vou levar meu cachorrinho pra passear à beira do Açude João Lopes, no Bairro Ellery. Que possamos discutir e aprender.

Um forte abraço a você!

Danilo.

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