quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Travestidas na BR

Jovens, irreverentes e guerreiras: conheça o coletivo artístico As Travestidas, que conquistou o público cearense e fará temporada, em outubro, na outra ponta do País

Por Danilo Castro

Foto de Sol Coêlho
Foi por acaso que me deparei com Gisele Almodóvar (Silvero Pereira) pela primeira vez, há sete anos. Impactado com a figura máscula e afeminada -ou feminal e masculinizada -passei a nutrir um respeito enorme por Silvero e sua obra potente, incômoda, debochada, trágica (a volúpia de sua arte até hoje não cessa aos meus olhos). Foi nos nichos suburbanos-gays cearenses que o ator encontrou a fonte de uma cena contemporânea que não para de florescer e que agora quer pegar a estrada até o Rio Grande do Sul.

Desde 2004, Gisele foi dando cria em larga e independente escala. Alícia, Yasmin, Verónica, Bárbara, Deydiane, Alice, Patrícia e Karolaynne são as filhas que vão ressignificando questionamentos sobre sexualidade, gênero, preconceito, afetividade, inclusão social e violência. As meninas carregam consigo um amplo discurso político, mas também estético. Afora a intervenção social e a busca pela sensibilização às causas dos LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), elas também querem cada vez mais visibilizar a arte transformista como arte cênica, para além da marginalidade.

BR Trans é o nome do projeto que resultou no espetáculo homônimo do grupo. O mais novo solo de Silvero, dirigido pela gaúcha Jezebel De Carli, estreou no primeiro semestre deste ano e foi construído a partir das histórias de vida de travestis do Ceará e do Rio Grande do Sul, onde o artista morou nos últimos seis meses para executar o seu projeto contemplado pela Funarte, em 2012. No início de outubro, elas todas querem se mandar para lá com intuito de intercambiar saberes e experiências. Para isso, vêm arrecadando recursos há três meses com diversas ações. A meta é R$ 16 mil para nove apresentações de parte do repertório do grupo: Cabaré da Dama, Engenharia Erótica e BR Trans, que devem acontecer na Uzina do Gasômetro e na Sala 309, em Porto Alegre.

Para conhecer o trabalho do coletivo e também sobre o projeto BR Trans, as informações estão no site www.projetobrtrans.com

Liberdade

O trabalho do grupo é uma busca irremediável por liberdade. Na ditadura dos anos 1970, os atores-bailarinos andróginos e psicodélicos Dzi Croquettes roubaram a cena teatral brasileira e parisiense, quebrando tabus comportamentais, sexuais, ideológicos... Quem sabe nessa ditadura velada (ou escancarada) dos tempos recentes, onde a heteronormatividade, a opressão político-religiosa e o conservadorismo se impõem, esteja na hora d’As Travestidas mostrarem ao Brasil a que vieram. Alguns dos próprios membros do Dzi Croquettes já assistiram as meninas em cena e atestaram o talento. Outras referências do teatro no mundo como Carlos Simioni, fundador do Lume; e o italiano Eugênio Barba, diretor do Odin Teatret; também já teceram elogios ao trabalho de Silvero. Quem sabe agora as meninas transcendam às causas dos seus pares para lutarem pelas causas de todo mundo. Elas precisam de nós e nós precisamos delas.

Quem são elas?

Silvero Pereira (Gisele Almodóvar)
Graduado em Artes Cênicas pelo IFCE, realiza no teatro as funções de professor, produtor, diretor, ator, dramaturgo e direção de arte;

JomarCarramanhos (VerínicaValenttino)
Graduado em Artes Cênicas pelo IFCE. Integrante fundador da Banda Verónica Decide Morrer. Professor de danças populares.

Bernardo Victor (Alicia Pieta)
Graduado em Artes Cênicas pelo IFCE. É cabeleireiro e maquiador, além de transformista e modelo fotográfico.

Denis Lacerda (Deydiane Piaf)
Membro dos grupos Pavilhão da Magnólia e Cia. Cearense de Molecagem, além de fazer parte do elenco da Blitz Intervenções.

Fábio Vieira (Barbara Cotröf)
Estudante de publicidade, formado em teatro pelo Curso de Direção Teatral do Instituto Dragão do Mar. Diretor dos vídeos Glossário e Glossário 2ª Lição;

Diego Salvador (Yasmin Shirran)
Formado em Teatro pelo Curso Princípios Básicos de Teatro no Theatro José de Alencar, possui curso técnico em Dança pelo Senac, além de aderecista e performer;

Elano Chaves (Alice Merveilles)
Graduado em Artes Cênicas pelo IFCE e no curso técnico em Dança pelo Senac;

Italo Lopes (KarolaynneCarton)
Formado em Teatro pelo Curso Princípios Básicos de Teatro no Theatro José de Alencar e pelo Curso em Teatro da Fábrica de Imagens.

Edson Dawson (Patrícia Dawson)
Formado em Teatro pelo Curso Princípios Básicos de Teatro e funcionário da Secretaria de Cultura do Estado no Theatro José de Alencar;

PRA NÃO PERDER

Hamlet ao pôr-do-sol 
Depois das montagens de Rãmlet Soul e Nossa Cidade, do Coletivo Soul, Thiago Arrais segue em temporada em nova direção com o espetáculo Hamlet: Solo. Durante o pôr-do-sol, a obra se instala no Estoril, na Praia de Iracema, com intuito de reativar o “epicentro espiritual e simbólico na história cultural de Fortaleza”, como sugere a divulgação do grupo. Quando: Sábados e domingos de setembro e outubro às 17h30. Onde: Estoril (Rua dos Tabajaras, 397). Lugares Limitados. Reservas pelo email: coletivosoul@gmail.com Informações: www.facebook.com/coletivosoul

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