quarta-feira, 16 de outubro de 2013

As verdades do teatro e outras mentiras

Em cartaz no Estoril, na Praia de Iracema, o Coletivo Soul leva à cena uma versão de Hamlet que goza do teatro, mesclando fluxos de vida dos atores ao clássico shakespeariano
Marcos Bruno e Bruno Lobo em cena de Hamlet: Solo, do Coletivo Soul.
Foto de Victor Augusto Nogueira

Queridos Hamlets,

Venho percebendo cada vez mais que minhas cartas-críticas têm resultado numa relação mais íntima entre apreciador e apreciado. Têm se tornado, ou tentado se tornar, uma experiência mútua, como quando de fato vivemos um acontecimento teatral. Criticar para além dos moldes tradicionais da crítica de arte me parece oportuno diante da coisa Hamlet: Solo de vocês, em cartaz no nosso saudoso Estoril. A Praia de Iracema das décadas que beiraram o meu nascimento deve ressurgir vívida durante o coito-cênico que vocês celebram conosco a cada apresentação. O espaço já carrega consigo sua áurea e vê-los penetrando-o como água em esponja é, no mínimo, prazeroso.

A obra de vocês transborda as convenções rígidas que outrora criaram para o teatro. É bonito ver que os fluxos de vidas de vocês se engendram ao clássico shakespeariano. Tanto que meus olhos brilharam quando os vi gracejando com a realidade, quando os vi rompendo com a dramaturgia do Príncipe da Dinamarca para enxertarem em cena a dramaturgia farsesca da vida de vocês. Quando vi o diretor (Thiago Arrais) invadir o tablado e confrontar um dos atores (Bruno Lobo). Ou quando os vi dessacralizando as verdades que dizem que o teatro tem. Para isso, nada melhor que o “XucaBoy - Catch Boo Quete” na boca do Lobo. Hamlets, vocês se mostram tão gozadores que não sei se a dor que fingem deveras sentem – que bom.

Hamlets, vocês não estão sozinhos como o protagonista medieval, mesmo que ele se cubra de água e feixes de luz numa banheira que por pouco não se tingiu de sangue jorrando de pulsos. Hamlets, eu os vi tão coesos que pareciam um só. Mas eu, cheio de querenças de menino que gosta de ver e de pensar teatro, fiquei desejando um monte de coisas para experienciá-los em profundidade, para além das carnes desnudas e suadas levadas à exaustão.

Quis não estar sentado no chão por três horas porque as costas doem. Esse incômodo não foi daqueles que louvamos por tirar o público de sua passividade. Em vez de me aproximar, vi-me paulatinamente distante. Quis ver as palavras pomposas de Shakespeare sendo lançadas de suas bocas como facas que se fincam no peito. Quis mais oportunidades para desfrutar das imagens quase sacras que vocês propõem com suas vestes, ainda que optem por um caos de ações livres ou, quem sabe, semi-codificadas. Quis mais solidez nas suas atuações para vê-la no mesmo patamar da disponibilidade de ser e não ser de cada um de vocês, Hamlets. Quis dormir, talvez sonhar que estaria vivendo algo que não me desviasse o foco. Quis vê-los tão grandes quanto a obra que criaram.

Cordialmente,

Danilo Castro.

SERVIÇO

Quando: Sábados e domingos de outubro às 18h.
Onde: Estoril (Rua dos Tabajaras, 397, Praia de Iracema)
Informações: www.facebook.com/coletivosoul

EM CENA

Festival] Prefeitura investe R$ 1 mi em edição
O Festival de Teatro de Fortaleza, previsto para acontecer na segunda metade de novembro deste ano, divulgou na última segunda-feira, 14, os espetáculos e projetos de formação aprovados para a programação. Boa parte das demandas do movimento teatral organizado foram contempladas. Em especial, o investimento em ações formativas nos espaços independentes geridos pelos grupos de teatro da Capital. Segundo Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor), o valor do evento este ano chega a R$ 1 milhão, 150% a mais que no ano anterior.

FORA DE CENA

Dragão do Mar] E a programação selecionada por edital? 
Em novembro de 2012, os editais do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura foram anulados após uma série de reivindicações dos movimentos artísticos em relação à política de cachês. Depois do longo processo de diálogo, surgiu, em janeiro deste ano, um novo edital das artes. A previsão era de que os projetos aprovados ficariam cientes no dia 12 de março, mas o resultado saiu somente três meses depois. A justificativa era uma reforma pela qual o teatro passava, mas mesmo após o fim da reforma, o resultado demorou para ser divulgado. Chegamos agora ao final de 2013 e até agora nada de convocação dos artistas selecionados para programação deste ano. E então, Dragão, a lacuna de um ano sem programação via edital vai mesmose concretizar?

5 comentários:

Edson Cândido disse...

Danilo, parabéns pela carta-matéria ao COLETIVO SOUL, apesar de não concordar com alguns pontos colocados sobre HAMLET. Com relação a SECULTFOR, gostaria, se possível, que você averiguasse o valor do recurso da SECULTFOR. Veja que o valor empregado para os grupos locais será inferior aos coletivos convidados. Repito CONVIDADOS. Uma vez que o fórum deliberou que todos os grupos (locais ou nacionais) passariam por uma seleção. Coisa que não acataram. Fico matutando..pra que o Fórum se vamos endossar os prazeres e os desejos do teatro "CONVIDADO". Não estou com discurso demagógico, gostaria muito de ter sido aprovado...não fomos. Bola pra frente. A vida continua.. Fiquei super feliz com os grupos aprovados. Fortaleza está numa verdadeira efervercência de grupos,artistas e o poder público não está acompanhando. SECULTFOR não seguiu a orientação do FÓRUM, esse que representa dezenas de artistas.

Danilo Castro disse...

Edson,

Obrigado pelo retorno. Posso ter me equivocado ao afirmar "boa parte das demandas foram contempladas". Na verdade, poderia ter escrito "parte das demandas...". Reconheço agora que também poderia ter me posicionado sobre a "seleção" dos locais e "convite" dos grupos de fora, como citou, mas até onde eu sabia a seleção iria ser para todos, locais ou de fora. Vamos conversando. Estou aqui para contribuir.

Bruno Lobo disse...

Danilo, sempre acompanho seus comentários, suas críticas.
Vc escreve muito bem e bem bonito e agora com essa carta-crítica vc nos mostra um lado mais lírico.
Só acho que uma crítica teatral vinda de uma pessoa que faz arte, pensa arte e escreve sobre suas impressões já com um respaldo não deveria ser uma crítica sobre o que a obra teria que ser.
Claro que somos livres para expor o que nos cabe mas a arte vai além disso... além da busca, do suor e do amor, ela é feita de escolhas e sempre achei muito esquisito críticas que se baseiam nesse "devia ser assado e não assim."
Sabemos que uma obra cênica sofre transformações a cada ato mas existem escolhas que são definitivas.
O que devia ser não o é pq se fosse não seria o que é.
Então, falemos sobre o que temos adiante, e falando em teatro
o que temos diante dos nossos olhos é muito breve
para perder tempo pensando em desejos mais efêmeros do que o próprio...

Danilo Castro disse...

Bruno, legal seu retorno. Escrevo tb pra poder dialogar e aprender. Concordo com vc: escrever julgando o que é certo ou errado é um grande equívoco quando tratamos de arte. É um tanto pretensioso tb. Escrevi por um viés afetivo e minha não-experiência fez parte da minha apreciação. Apreciei-os em flanação, vadio e livre. E minhas querenças não são aquilo que o Hamlet: Solo de vcs deveria ser. São apenas querenças, com ou sem "respaldo", eu as tenho e não vejo problema em expô-las. Não é isso que torna minha cartinha valorativa no sentido de dizer o que seria "melhor" ou "pior", como interpretou. Isso acaba mercantilizando a crítica e a própria arte. E arte cênica é obra em processo, como disse. Tento ser propositivo, contribuir, mesmo q minhas sugestões estejam bem distantes das querenças de vcs. Um abraço.

Bruno Lobo disse...

Ok, boy! Às nossas querenças e querelas! =*