quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Danilo decidiu ir embora

"Se eu dissesse que Brasília é bonita, veriam imediatamente que gostei da cidade. Mas se digo que Brasília é a imagem de minha insônia, veem nisso uma acusação; mas a minha insônia não é bonita nem feia - minha insônia sou eu, é vivida, é o meu espanto. Os dois arquitetos não pensaram em construir beleza, seria fácil; eles ergueram o espanto deles, e deixaram o espanto inexplicado. A criação não é uma compreensão, é um novo mistério... Brasília não me deixa ficar cansada."

Clarice Lispector,
A descoberta do mundo

Foto de JR. Panela


Fortaleza, 27 de novembro de 2013

Keka, Andrei e Ed,

Antes eu era um. Agora eu não sei mais quantos Danilos eu sou. Agora penso que um dia já tive um nome estranho ou que falsifiquei minha certidão de nascimento no cartório para ficar mais novo. Sim, eu gosto de pipocas, de cantar “zig zig, ah” e rebolar as ancas feito Spice Girls. E quero pular pra sentir o vento estapeando o meu rosto. Eu gosto de gritar seus nomes como se fosse a última vez em que fosse possível gritá-los. Eu também quero ser santa e não vejo problema nisso mesmo que eu diga que há. Eu gosto de vocês, muito, e sinto que suas vidas agora também são minhas, porque não dá mais pra dizer onde me começo e onde me termino. Somos todos “entre” - meio lá, meio cá - gozando por estarmos perdidos nessas fronteiras. Se é que elas existem. Se é que estamos perdidos mesmo. Ou essa foi a fórmula para nos acharmos uns nos outros - e amarmos uns aos outros com um amor tão forte quanto aquele que sentimos pelo nosso ofício. Eu acho que amo vocês como nunca amei outros artistas e quero continuar amando-os pelas suas memórias que se engendraram às minhas. Tenho fome de tangerina. Tenho fome de vocês. Eu decidi que vou embora daqui, mas vou continuar com fome e cheio de dor, querendo violentá-los loucamente enquanto choramos ou gargalhamos de súbito por verdades que escolhemos reviver em poesia. Vou continuar querendo criar, porque nossa criação não está arquitetada. É um mistério, é o nosso espanto, como disse Clarice. Eu não me sei mais daqui pra frente. Mas meu passado é de vocês e sei que nunca vou perdê-los de mim, mesmo em Brasília ou em qualquer lugar do mundo. 

Com saudades,

Danilo.

Conheça o Projeto Achados & Perdidos.

Um comentário:

Andrei Bessa disse...

tem horas que prefiro o silêncio. ele pode falar e revelar muita coisa, tem coisas que as palavras não conseguem dizer, mas os silêncios sim.

Deixo aqui um grande silêncio e uma certeza: também te amo.