segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Pela sutileza da histeria e da dor

Brasília, 15 de dezembro de 2014.

Ronaldo Saad na pele de Veludo, em Navalha na Carne
(Foto: Daniel Fama)

Ao Teatro Gasolina.

Sempre que me deparo com um clássico, piso eu em um solo movediço, instável, e vou criando uma expectativa diante da obra que está por vir. Dá-me vontade de redescobrir a peça que já me é conhecida, mas sob uma nova textura, a partir da leitura que os artistas deram ao texto. O santista Plínio Marcos (1935 - 1999) é um dos expoentes da dramaturgia contemporânea brasileira. Tem uma escrita cênica cheia de identidade, marcada pela subversão e escatologismo de um submundo ainda tão presente na realidade dos guetos urbanos atuais.

Não é à toa que hoje uma infinidade de grupos teatrais encenam o clássico nacional, que estreou em 1967, mas que por 13 anos foi uma obra proibida pelos confins da repressão. No último final de semana, fui ao charmoso teatrinho Goldoni, em Brasília, conferir o espetáculo Navalha na Carne, na roupagem do grupo Teatro Gasolina (DF), sob a direção de Júlio Cruccioli.  A obra segue o texto à risca. Daí me vi mais apreensivo por me deparar com as palavras jorrando dos atores de uma forma pouco orgânica, sem a espontaneidade a que se propõe o grupo, ainda que inseridos numa imagética simbólica.

Na trama, Neusa (Meny Vireira), Vado (Márcio Andrade) e Veludo (Ronaldo Saad) se confrontam numa realidade suja de amor, ódio e abandono em um quarto mofado. Uma história que carrega toda a denúncia social de Plínio, eivada de histeria e dor. Acredito que o grito, para se fazer forte, não basta ser expelido com todo o diafragma garganta afora. Precisa vir acompanhado da leveza do vazio. Se entro em cena com toda minha potência e me mantenho nesse registro por um espetáculo inteiro, em poucos instantes, eu não serei mais novidade. Não serei instigante. Não serei revelador. Serei o mesmo. O que grita. O comum.

Talvez, há de se descobrir a sutileza do grito. De se fazer o trabalho oscilar numa linha que pende, mas numa crescente. Brigar nem sempre é gritar. Há de se trazer a superabundância sígnica proposta na cenografia, mas que não ressignifique por ressignificar. Há de se aproveitar todo o potencial criativo das ideias com a sonoplastia (realizada por Tássia Vieira), mas que não interfira com inusitados recursos operados ao vivo apenas por interferir. A “Navalha embebida na Gasolina” me pareceu um trabalho franco, cheio de gente entregue à cena, disponível e feliz com a realização da obra: um depósito de boas e potentes ideias, mas que pouco casaram entre si.

Com respeito,

Danilo Castro.

3 comentários:

Teatro Gasolina disse...

Caro DANILO CASTRO, o TEATRO GASOLINA agradece sua leitura repleta de sinceridade, sensibilidade e conhecimento cênico de nossa montagem. Seja sempre muito bem-vindo aos nossos eventos cênicos e audiovisuais. Quando quiser, venha conhecer nosso pequeno, simples mas aconchegante laboratório teatral.

Felicitações,
TG - CPC

Ronaldo Saad disse...

Danilo, obrigado pelo texto, pelas palavras sinceras e mais ainda: pelo respeito com o teatro!!! Ano que vem entraremos em temporada e com certeza nao vou esquecer do que vc falou. Obrigado!

Danilo Castro disse...

Gasolinas,

Fico super feliz com a recepção. São poucas as vezes em que os grupos respondem com essa maturidade. Escrevo para tentar contribuir. Arte taí pra gente experienciar, pensar sobre ela. Fiquem à vontade para discordar também. Esse é mais um olhar diante dos muitos que estão por vir. Que possamos discutir, fomentar e aprender cada vez mais sobre teatro.

Obrigado pelo convite!