sábado, 17 de janeiro de 2015

Engolindo o amor ou Bichos que amam

Fortaleza, 17 de janeiro de 2015
Foto: Alex Hermes

Inquietos,

Eu fiquei achando o máximo um televisor que irritantemente não desliga, chiando por quase uma hora, atrapalhando diálogos, afugentando nossa distração para canalizar ainda mais a atenção ao trabalho que assisti. A experiência que vocês propõem com “8 milhões de habitantes” parece ser reflexo de uma gente inquieta mesmo, hiperativa, que faz do teatro uma rediscussão de si bem além daqueles chavões metateatrais.

8 milhões de habitantes é uma proposta esquisita, que tem o texto do jovem dramaturgo cearense Honório Félix como mote, mas que se coloca numa encenação que fala por si, ou melhor, grita por si: desconexa, ousada, rompendo com os preceitos tradicionais que nos ensinam no teatro. É bonito ver o quanto se arriscam e como o que propõem nos leva a texturas de dilemas amorosos e animalescos sem uma indicação direta e óbvia aos assuntos. É uma dramaturgia imagética, política e livre.

Teatro é corpo, é imagem, é dança, é som. E quando tudo isso vem com a mesma força, a gente do lado de cá da plateia arregala os olhos e leva uma rasteira. Acho que não dá mais pra ficar colocando em caixinhas que delimitam o que é cada linguagem quando se trata de cena. É bonito ver que vocês bebem de tudo um pouco e se jogam num território entre loucura, exaustão, desespero, sujeira, formiga e amor.

Tanto que, na minha cabeça, pinceladas de cenas dos vídeos e espetáculos da alemã Pina Bausch me vinham a todo instante, trazendo-me esse gostoso entremeio Tanztheater (dança-teatro) que muito me instiga – acho que aqui está a força da diretora, bailarina e performer Andréia Pires, que também se joga em cena junto aos habitantes- literalmente.

Talvez, nas cenas de deboche propostas no “2º ato”, seria interessante pensar na qualidade do riso e da ironia que propõem. A graça é algo espontâneo e os elementos que vocês sugerem são por si, interessantes e irônicos. É como se fosse uma questão de tom, cuidado pra não ultrapassarem a nota. Será que fui claro ou é uma bobagem minha?

Acho que há algo que se repete positivamente na cena contemporânea cearense e parece que reflete uma estética de um tempo. Uma estética dos jovens artistas cênicos do Ceará (eu também me insiro aqui). Em especial aqueles que vêm egressos dos cursos superiores de teatro da Universidade Federal do Ceará (UFC), do Instituto Federal do Ceará (IFCE) e das formações independentes e alternativas em teatro por Fortaleza.

8 milhões de habitantes é um dos trabalhos de conclusão da residência Habitat de Atores, realizada com 20 artistas em 2014 pela Inquieta Companhia de Teatros, a partir de edital da Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor).

É. Acho que vocês estão maduros para viverem e se descobrirem nessa experiência que me lembrou outras recentes cenas cearenses como “Metrópole”, “Um lugar para ficar em pé”, “Como representar os Negros”, e até mesmo o “Projeto Achados & Perdidos”, que mais se jogam numa vibe performativa que necessariamente num preciosismo estético e enrijecido.

Bichos que amam são assim: não têm medo abocanhar e engolir o amor de uma vez.

Beijos,

Danilo.

Serviço

Quando: 22 e 29 de janeiro às 20h
Onde: Teatro Sesc Senac Iracema
Quanto: R$ 5 e R$ 10.
Informações: www.facebook.com/InquietaCiadeTeatros


4 comentários:

Camila Vieira disse...

Ai, q texto lindo, Danilo. Muito bom voltar a ler seus textos.

Eff Mendes disse...

Tava com saudades de ti e dos teus textos!!!

Honório Félix disse...

Abocanhei e engoli de uma vez o seu texto cheio de amor. Gratidão, Danilo

Andréia Pires disse...

danilo ( agora cafuçú ) obrigada pelas palavras, pela partilha!