sábado, 21 de fevereiro de 2015

Nem todo mundo pode com Máquina Fatzer

Márcio Medeiros em Diga que você está de acordo, do Teatro Máquina. Foto: Deivysson Teixeira
Fortaleza, 21 de fevereiro de 2015

De que servem as palavras?
Eu queria ver sangue, mas amofinei de dor quando vi.
Eu queria ver guerra, porque achei que seria só teatro.
E o teatro me foi presente. Tanto quanto a vida.
Máquina Fatzer me destruiu aos poucos.
De que servem as palavras?
Eu queria que o teatro exagerasse no desabrochar de uma flor.
Por que o teatro exagera no tempo da dor?
Porque o teatro exagera no tempo da dor.
Tenso. Epifania. Repetição.
Beterraba. Beterrabei. Beterrabarei.
Eu não quero mais ver a beleza da dor.
Não quando eu estiver doente.
De que servem as palavras?
Achei que seria só teatro.
Mas fui violado.
O teatro está em mim.
O teatro é aquilo que eu sou.
E eu fui o guerrilheiro doente antes da Máquina Fatzer me adoecer.
Eu me violei.
E piorei. A carne apodreceu.
Porque o teatro exagera no tempo da dor.
De que servem as palavras?
Isto aqui é sobre o que não quero dizer.
Nem todo mundo pode com Máquina Fatzer.
Nem todo mundo está de acordo.

Impressões a partir do espetáculo “Diga que você está de acordo”, do grupo Teatro Máquina. A obra é inspirada na peça incompleta Fatzer, do alemão Bertolt Brecht, escrita na década de 1930. O espetáculo narra a tensão de quatro soldados e uma mulher enclausurados clandestinamente em uma casa durante a primeira guerra mundial. Segue em cartaz nos próximos dias 26 e 27 de fevereiro, no Teatro Dragão do Mar, às 20h. R$ 20 e R$ 10. O espetáculo não é recomendado para menores de 18 anos.

Danilo.

Assista o teaser:

3 comentários:

Márcio Medeiros disse...

Lindo texto mesmo Danilo Castro. Me ocorre agora que há um discurso em pauta sobre uma dor urgente em Fatzer. No seu texto também há uma dor. Poética talvez. Traduz muito do que se vive na cena. Conexão talvez. Obrigado pelas palavras. Emocionado.

Loretta Dialla disse...

Creio que não há fuga para a dor em "Fatzer" ou na máquinafatzer. Fico tb emocionada e agradecida por vc partilhar desses instantes de presente, dessas fatias de vida que o teatro proporciona entre nós.

Felipe de Paulla disse...

Belo texto