quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O teatro está precisando de Vagabundos!

“Temos um novo teatro em Fortaleza. Ele é feito desses diretores, dos atores cheios de coragem e força e de uma vontade acertada de produzir o insuportável”.

Fran Teixeira.

Foto: Alex Hermes














Fortaleza, 4 de fevereiro de 2015

Vagabundos,

Pois taí. Sabe aquela afirmação batida que a gente ouve alguns artistas dizerem: faço arte para levar alegria ao meu público. Pois foi assim que me senti após sair da festa que é o espetáculo de vocês. Vagabundos, dirigido por Andréia Pires, com atores egressos do curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal do Ceará (UFC), emana um estado de alegria.

Me consumiu como uma pílula de felicidade. Saí com vontade de tomar uma caipirinha, de falar besteira, de dançar. Quando percebi, me vi pensando sobre tudo que tinha assistido e meu corpo, meio eufórico, desfilava pelas calçadas da Av. Dom Manuel no trajeto Sesc Senac Iracema – parada de ônibus. Eram as músicas pops do trabalho de vocês que ainda pulsavam em mim.

Teaser do espetáculo Vagabundos.


É que me deu uma vontade súbita de vagabundear, de rir, de brincar com vocês no meio da sujeira, roupas e comidas. De jogar esse jogo errante e fuleiro. E eu ri, muito, e continuei rindo depois, sozinho, enquanto inflava o peito e caminhava pra casa na batida do espetáculo. E nem tive medo das balas de verdade que poderiam surgir nessa Fortaleza apavorada, mesmo estando tarde e vazio, mesmo tendo me assustado com as bombas perdidas que vocês lascam na cena.

A obra, estreada em 2013, é um caos imagético, onde atores se engendram numa infinidade de texturas e cores de objetos espalhados por toda a caixa cênica. É um trabalho mutante, que surpreende, onde as formas vão ganhando ressignificações inimagináveis. É tudo de uma vez, como um vômito. Não dá pra saber direito o que é mais importante pro nosso olhar seletivo. Vocês vagabundeiam com o teatro, tiram sarro de nós, da política, da TV, do povo. São bufões.

Veio à cabeça trechos do espetáculo argentino Mi Vida Despues, dirigido por Lola Arias (no fim do post indico o vídeo), principalmente por causa do carnaval de roupas, da coleção de histórias e da brilhante Victória Fonseca, de apenas quatro anos, que graceja em cena roubando nosso olhar. Dá pra perceber a linha de investigação cênica da diretora, principalmente se forem tecidas relações com o recém estreado espetáculo 8 milhões de habitantes, também de Andréia, onde dança e teatro se misturam e os atores se tornam organismos pulsantes no palco, sem se delimitarem.

A gente é o que a gente come. E nessa última noite de domingo eu comi vocês. Por isso fiquei assim, leve, pândego, sem pretensão nessa escrita, diferente das minhas últimas cartas-críticas que andei enviando. Tô só com vontade de externar o tamanho desse afeto que eu criei a partir de hoje pelo trabalho. E olha que a parada que vocês criaram é um monstrinho, heim? Daqueles que marcam, que fazem história, que lá na frente a gente vai lembrar com um saudosismo danado: teve um espetáculo em Fortaleza que era do papoco... e tal e tal...

Obrigado.

Danilo.


A seguir, trecho do espetáculo Mi Vida Despues, da argentina Lola Arias.

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