sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Registros de um teatro vivo (Jornal Diário do Nordeste)

"Do teatro que temos ao teatro que queremos" busca contribuições do público para que possa ser publicado

Entrevista com Fernando Yamamoto (RN). Foto: Ramón Vasconcelos

O teatro de grupo vem se tornando uma das escolhas estéticas e ideológicas mais adotadas por atores e diretores teatrais no Ceará. Os artistas que se unem em coletivos e grupos teatrais querem não só compartilhar entre si o palco, mas toda a experiência cênica.

Pensando nisso, o ator e jornalista Danilo Castro quis levar essas maneiras de encontrar-se com o teatro para as páginas de um livro. Assim começou o processo literário do livro-reportagem "Do teatro que temos ao teatro que queremos".

"O livro foi a maneira de juntar minhas duas grandes paixões: o teatro e o jornalismo. Fui percebendo o quanto o teatro independente, a arte que vem da pesquisa, a arte política e crítica é difícil. Percebi o quanto viver desse teatro é bonito e difícil, ao mesmo tempo, e quis trazer isso para o livro", conta Danilo Castro.

A obra foi seu trabalho de conclusão de curso em Jornalismo na Universidade Federal do Ceará e foi defendida em 2013. Agora, Danilo conta com um site de financiamento coletivo, o Catarse, para tentar publicar o livro. A campanha teve início neste mês de fevereiro. Para alcançar o objetivo, pelo menos cinco mil reais devem ser arrecadados.

O público que contribuir recebe, em contrapartida, exemplares do livro-reportagem, marca-páginas personalizados e o nome citado na página de agradecimentos.

Entrevista com Sérgio de Carvalho (SP). Foto: Flávio Ferraz
Do que temos

A obra é dividida em duas partes. Na primeira, "Do teatro que temos", Danilo traça o perfil estético, institucional e pessoal de três grupos teatrais cearenses: Expressões Humanas, Bagaceira de Teatro e Teatro Máquina.

Através de entrevistas e imagens, o autor perpassa pela história dos grupos e pelos processos dos atores e diretores, transportando as questões colocadas para os grupos a realidades de coletivos em outras regiões do Brasil.

O recorte temporal do livro coincide com a fundação do grupo experimental Expressões Humanas, fundado em 1990. Ancorado num teatro político e crítico, o repertório da companhia leva para os palcos questões como a ditadura militar no Brasil.

O segundo perfilado é o Bagaceira de Teatro, grupo com quase 15 anos de história. Através de provocações conceituais e emocionais, numa comunicação acessível com o público, o coletivo vêm construindo uma linguagem peculiar e se firmando como uma importante referência dentro da cena cultural cearense. Para encerrar, o grupo Teatro Máquina foi apresentado ao leitor. O coletivo constrói seus espetáculos através de três eixos convergentes: a formação, a produção e a ação política, em trabalhos que envolvem os princípios formais de composição, a exploração do gesto e a noção expandida de narração.

Em comum, o formato teatro de grupo, fundador dos três coletivos. O encontro entre atores, diretores e outros atuantes do ato cênico nasce da convergência ideológica entre os membros e da horizontalidade no processo criativo.

Entrevista com Vanéssia Gomes (CE). Foto: Fernanda Siebra.
Ao que queremos

"No decorrer do livro, fui notando que eu estava com um olhar muito meu. Foi aí que eu resolvi conversar com grandes nomes do teatro, para que eles pudessem trazer esse outro olhar para o trabalho", explica Danilo Castro sobre a segunda parte do livro-reportagem. A ampliação da visão da obra sobre o teatro foi sendo colocada pelo próprio processo e o autor foi buscar local e nacionalmente artistas que pudessem falar da cena.

Para tanto, Danilo entrevista três diretores, falando local, regional e nacionalmente, nessa ordem, sobre o teatro e as muitas perspectivas que o cerca. São eles, Vanéssia Gomes, diretora do Teatro de Caretas (CE), Fernando Yamamoto, diretor do Clowns de Shakespeare (RN) e Sérgio de Carvalho, diretor da Cia. Do Latão (SP).

Os artistas falam sobre políticas públicas, movimentos teatrais e lançam críticas e prospecções para o teatro de grupo. "Todo eles estão em atividade, fazendo teatro, e conhecem a realidade de agora. Eles lançaram outros olhares, além do meu olhar. O meu olhar conta as histórias dos grupos e o deles fala de teatro e da cena cultural atual", finaliza o autor do livro.

Para complementar a narrativa, a diagramação do livro foi pensada para conversar com as histórias contadas e com o teatro de maneira mais geral. A leitura foi planejada para ser feita de maneira circular. Se você está lendo o perfil de algum dos coletivos retratados na obra e quiser passar para as entrevistas, terá que girar o livro. E assim, até mesmo fisicamente, a obra eterniza o movimento sempre tão presente no teatro - de circular e se reinventar.

"As artes cênicas são obras vivas, teatro que eu digo é artes cênicas, tudo que acontece com a presença do outro. Toda vida que acontece a apresentação, por mais que seja uma repetição, algo novo acontece. O público que está ali reage de uma forma diferente, o ator improvisa", diz Danilo Castro. "Por isso, eu quis fazer um livro vivo, com essa rotação, com essa circularidade", completa.

A pouca literatura sobre teatro cearense e o desejo de preservar a memória e a história dos grupos impulsionaram Danilo a escrever o livro. A acessibilidade para que tanto pessoas do teatro como pessoas distantes desse universo, mas com interesse pela área, pudessem compreender as histórias ali apresentadas o fez optar pela escolha da linguagem jornalística e do livro-reportagem como plataforma. Agora é momento de ver a obra crescer e ampliar horizontes.

A meta de cinco mil reais permitirá a impressão de uma tiragem de 500 títulos. Porém, Danilo quer ver a obra voar bem mais alto.

"Eu quero ultrapassar a meta, para que a tiragem possa ficar ainda maior. Esses livros 'extras', eu quero enviar para sedes de companhias de teatro por todo o Brasil, para que o teatro cearense seja mais difundido."

Mais informações:

Publicação do livro "Do teatro que temos ao teatro que queremos". Para contribuir, acesse: http://catarse.Me/pt/doteatroquetemosaoteatroquequeremos

Fonte: Jornal Diário do Nordeste, Caderno 3 (20/02/2015)

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