quarta-feira, 15 de abril de 2015

CARTA DE REPÚDIO ÀS AÇÕES DO CENTRO DRAGÃO DO MAR DE ARTE E CULTURA PARA O TEATRO

Fortaleza, 14 de abril de 2015.  

Reunião realizada dia 13/04/2015, na sede Teatro Acontece - Escola Livre de Teatro
Aos gestores e espectadores do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura:  

O teatro vive e renasce por meio daqueles que buscam qualificar sua própria vida e seu caráter humano através da expressão, ampliando o existir coletivo e a vida em comunidade. Em uma perspectiva histórica, o teatro inicia e se fortalece por que há pessoas, grupos e instituições que compreendem esta arte como elemento indispensável para dignificar a vida, bem como para significá-la.  

O Ceará é prova viva dessa história de amor e resistência. É possível entrever o desejo de continuidade e permanência no teatro em cada artista e grupo que começa ou segue fazendo teatro neste lugar; entretanto, quando lidamos com às instituições culturais de nosso estado, a vontade política em dignificar a vida por meio do teatro, nos parece muitas vezes lacunar.   

Reunião realizada dia 13/04/2015, na sede Teatro Acontece - Escola Livre de Teatro
Sentimos na pele hoje o quão alarmante é o fato dos gestores dessas instituições, espaços e equipamentos culturais não encararem com o devido comprometimento nossos esforços e iniciativas enquanto artistas e grupos que diariamente põem à prova o desejo vital de produzir teatro no Ceará. A situação agrava-se mais ainda ao permitir que este descaso chegue à relação do equipamento cultural com os espectadores. 

Portanto, é importante perceber que o edital é somente um dos viés que reflete a escolha de uma gestão para o Centro Cultural dragão do Mar. Se atentarmos para o fato de no primeiro semestre de 2015, existir a previsão de 12 estreias de grupos profissionais em Fortaleza, sem falar das estreias no interior do estado, perceberemos o quanto este edital está distante de refletir e dar oportunidade a produção local cearense. Enquanto isso o Teatro Dragão do Mar, conforme o novo edital, não selecionará apresentações de grupos locais aos sábados e domingos à noite durante 2015 e 2016. Onde está a visibilidade que querem dar ao teatro cearense? 

Assim, nós, artistas e grupos de teatro do Ceará que temos acompanhado a atual gestão do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC) consideramos que o pensamento e as ações realizadas por esta instituição no campo do teatro não compreendem em termos qualitativos e quantitativos as identidades, demandas e movimento do teatro produzido atualmente no Ceará.   

As evidências que refletem essa negligência são:  

a) A falta de continuidade e melhoria de ações desenvolvidas para o teatro e no Teatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, tais como “Teatro da Terça”, “Nas Ruas do Dragão” e “Teatro Infantil”, que deveriam incentivar o hábito e consumo cultural fomentando uma política real de fruição e difusão teatral, e não uma política de eventos, como vem realizando a presente gestão. Ademais, não há pensada e realizada nenhuma outra ação transparente de ocupação do teatro, que deveria sim funcionar em constância dia a dia, assim como se dá nos Cinemas, Museus, e outros equipamentos do CDMAC;  

b)  Atualmente, a programação selecionada via concorrência pública se restringe a seis espetáculos da capital e do interior em cada programa para o biênio (2015/2016). É alarmante o quão distante do múltiplo e diverso contexto de produção teatral do Ceará está esse Edital. Como se apresenta para o teatro em nenhum momento ele poderá se configurar como “uma grande vitrine da arte criada e produzida aqui”, como deseja, em palavras expressas no texto de apresentação do edital, Paulo Linhares, presidente do IACC, mas sim continuará a fomentar uma ação cultural equivocada, pautada na eventualidade, e sem sustentabilidade. Política a qual discordamos ampla e profundamente. O discurso de aumento de investimentos anunciado em 2013 cai por terra diante da política descontinuada que vem acontecendo desde que assumiu esta gestão, principalmente no que concerne à diminuição do número de espetáculos teatrais aprovados. Em edições anteriores, eram entre 10 e 12 selecionados por programa para cada ano, e a agora praticada aprovação de 6 contemplados por programa para um biênio (2013/2014; 2015/2016). O publicitário aumento de investimento nos editais é assim uma falácia diante a redução do quantitativo de contemplados que aconteceu nos últimos anos;   

c) O sucateamento do Teatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, com uma dita reforma que só veio a prejudicar a área da plateia, onde agora existe uma rampa para entrada e saída em seu meio. Ora, o meio da área de plateia de um teatro como o do Dragão é em regra o melhor lugar para visualização de um palco italiano; além do mais a tal reforma se restringiu a este ponto. Poltronas para os espectadores continuam danificadas, assim como todo o material técnico, de iluminação, cenografia e camarins estão deteriorados;  

d) A não transparência e desorganização no agendamento e cessão de pauta, bem como o seu valor para os grupos locais, o que deixa também entrever a inexistência de uma equipe com formação na área e a falta de pensamento de organização e curadoria na gestão do Teatro. 
Por isso defendemos:  

a) Edital para ocupação do equipamento por 12 meses, lançado sempre no ano anterior; 

b) Ocupação do Teatro e outros espaços cênicos, de terça a domingo;  c) Clareza e publicização dos critérios de cessão e venda da pauta do Teatro;  d) Estruturação, manutenção e reforma já do Teatro.  

Como ação primeira, repudiamos publicamente a formulação da categoria teatro nos “Editais Culturais do Dragão do Mar” e não nos inscreveremos nesse EDITAL, considerando que o mesmo reflete um total descaso com o atual movimento teatral. Isso se evidencia não só pela escassez do número de participantes, reflexo de um total desconhecimento da produção local, como também pela falta de um pensamento que norteie as ações de fomento em um dos equipamentos mais importantes para a cena cultural do Ceará.  

Cientes de nosso vital compromisso com o teatro, vimos através desta carta explicitar nossa impaciência e descontentamento com ações que a nosso ver massacram o direito de ocupação da produção local nesse equipamento público, bem como refletem a total falta de interesse nessa participação. Por último, fica expresso o nosso comprometimento com o encontro que almeje melhorias, portanto nos dispomos e pleiteamos um efetivo diálogo através de reunião que produzam encaminhamentos resolutivos de nossas demandas junto à gestão deste Centro Cultural.  

Movimento Todo Teatro é Político  

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